A Argentina vai permitir que estrangeiros comprem cidadania a partir de US$ 350 mil a partir do quarto trimestre de 2026. O governo de Javier Milei aposta no programa para injetar dólares frescos em um Tesouro que precisa honrar US$ 29 bilhões em dívidas externas até o fim de 2027. A promessa oficial é arrecadar US$ 2,5 bilhões em cinco anos.
Duas rotas estarão disponíveis: uma doação direta e irrecuperável de US$ 350 mil (cerca de R$ 1,8 milhão) ou a compra de um título público de cupom zero no valor de US$ 800 mil (R$ 4,1 milhões). Em ambos os casos, o capital fica retido pelo Estado argentino sem devolução ou juros periódicos.
Por que o passaporte argentino vale mais que o das ilhas do Caribe
O documento garante entrada sem visto em mais de 160 países — incluindo União Europeia, Reino Unido e boa parte da América Latina. Para Armand Arton, presidente da Arton Capital, consultoria que assessora o governo, isso coloca a Argentina em outra prateleira: “Ter um país do G20, com o porte e as oportunidades que representa, é uma proposta muito diferente das que existem no mercado”.
Hoje, programas semelhantes concentram-se em microestados como Malta, São Cristóvão e Nevis ou Dominica. A Argentina seria a primeira grande economia do Hemisfério Sul a aderir ao clube dos “passaportes dourados” em escala federal.
O que o investidor precisa saber antes de assinar
- Lançamento operacional: quarto trimestre de 2026
- Opção 1 — Doação: US$ 350 mil (R$ 1,8 mi) ao Tesouro, sem retorno
- Opção 2 — Título público: US$ 800 mil (R$ 4,1 mi) em cupom zero, sem juros
- Due diligence: “avaliação rigorosa” prometida pelo Ministério da Economia
- Meta de arrecadação: US$ 2,5 bilhões em cinco anos
A burocracia promete filtros de segurança nacional, integridade financeira e reputação internacional. Não há, porém, detalhes públicos sobre prazos de processamento, exigências de residência física ou possibilidade de inclusão de familiares no mesmo pedido.
O elefante na sala: risco político e judicial
O decreto não passou pelo Congresso. Em ano pré-eleitoral — a disputa presidencial ocorre em 2025 —, a oposição já sinaliza que pode transformar o programa em arma de campanha. Arton admite: “Programas como esse sempre viram arma política em qualquer eleição”.
No exterior, o precedente de Malta pesa. O Tribunal de Justiça da UE declarou ilegal o esquema maltês em 2024, vedando a prática no bloco. Embora a Argentina não integre a União Europeia, a decisão cria jurisprudência que pode pressionar parceiros comerciais a exigirem mais transparência.
Cenários para os próximos 18 meses
Se o fluxo de candidaturas atingir a meta, o alívio de caixa será real, mas marginal frente ao estoque de dívida. O verdadeiro teste virá com a primeira leva de passaportes emitidos: quantos investidores de fato virão, qual o perfil de risco aceito pela due diligence e como o mercado secundário de títulos de cupom zero vai precificar o papel argentino.
Para quem observa do lado de fora, três variáveis merecem monitoramento: a tramitação (ou falta dela) no Congresso, eventuais contestações judiciais internas e a reação de organismos como GAFI e OCDE sobre lavagem de dinheiro. O passaporte está à venda — a entrega, porém, depende de variáveis que o dinheiro não controla.
