O novo CEO da Porsche, Michael Leiters, confirmou que não haverá uma versão 100% elétrica do icônico 911. A decisão marca uma guinada radical na estratégia da marca alemã, que agora prioriza o desenvolvimento de modelos a combustão para recuperar margens que despencaram de 18% para 1,1% em apenas um ano.
Mas a aposta no motor a gasolina não é apenas nostalgia — é uma resposta direta ao comportamento do consumidor de alta renda. Leiters admite que a demanda por elétricos no segmento de luxo não se materializou como o previsto.
O fracasso do Macan elétrico expôs a realidade
Os números do primeiro semestre são claros: as vendas do Macan elétrico caíram 40% na comparação anual. Enquanto isso, as versões a combustão subiram 2%, mesmo após a Porsche ter interrompido a comercialização do modelo a gasolina na Europa por questões de conformidade com normas de cibersegurança da UE.
Esse descompasso forçou a mão da diretoria. A solução encontrada é lançar uma nova geração do Macan com motor a gasolina em 2028, preenchendo um vazio de produto que a marca não pode sustentar por mais tempo.
Reestruturação agressiva e corte de 9.000 postos
Desde que assumiu em janeiro, Leiters executou uma limpa no portfólio da empresa:
- Encerrou subsidiárias de bicicletas elétricas, baterias e software
- Vendeu a consultoria de TI para a Tata Consultancy Services
- Desfez participações na Bugatti Rimac e no Rimac Group, arrecadando cerca de 1 bilhão de euros
- Acordou com sindicatos a redução de 20% da força de trabalho até 2035
O objetivo declarado é baixar drasticamente o ponto de equilíbrio da operação, que hoje exige volumes muito acima do patamar atual de 280 mil unidades anuais.
A China virou o maior problema — e não tem solução rápida
As entregas no mercado chinês recuaram 32% no primeiro semestre. Leiters descreve o ambiente como “autodestrutivo”: cerca de dois novos modelos chegam ao mercado por dia, impulsionados por BYD, Xiaomi e dezenas de outras marcas locais.
O executivo prevê uma consolidação inevitável, mas evita cravar prazos. “A questão é: quanto tempo isso levará?”, disse em sua primeira entrevista internacional ao Financial Times.
Margem alvo mantida, mas o caminho encurtou
Apesar do cenário adverso, a meta de margem operacional de médio prazo segue entre 10% e 15%. Para chegar lá, a Porsche aposta no acesso às tecnologias do grupo Volkswagen para não ficar para trás nos elétricos, enquanto monetiza a base instalada a combustão.
Leiters rejeita o rótulo de cético em relação à eletrificação. O 718 elétrico segue em desenvolvimento. Mas ele é enfático: os custos de produção de elétricos e a gasolina não se igualarão no curto prazo, o que significa que cada EV vendido continua comprimindo a rentabilidade.
O que observar nos próximos meses
O evento para o mercado de capitais na próxima semana deve trazer projeções mais realistas para a China e um novo break-even ajustado à realidade atual. Até 2028, a lacuna no portfólio será o maior teste para a marca: concorrentes chineses avançam no premium enquanto a Porsche depende de modelos envelhecidos e de um 911 que, pela primeira vez em décadas, não terá sucessor elétrico à vista.
