Nas eleições de 4 de outubro, cada eleitor fluminense terá dois votos para o Senado — e eles não podem ser dados ao mesmo candidato. As duas vagas renovam a bancada que hoje é 100% do PL, com mandatos de oito anos em jogo.
O colégio eleitoral do Rio soma 12,8 milhões de votantes. A regra é simples: os dois mais votados levam as cadeiras. Mas, por trás da mecânica, há um tabuleiro que mistura reeleição, salto para a Presidência e estreantes de partidos nanicos a legendas tradicionais.
Por que a composição da bancada vai mudar
Hoje o estado é representado por Romário, Carlos Portinho e Flávio Bolsonaro — todos do PL. Os mandatos de Portinho e Flávio terminam em janeiro de 2027. Portinho tenta a reeleição; Flávio disputa a Presidência da República. Pelo menos uma cadeira trocará de mãos, e a segunda depende do desempenho do atual senador na corrida ao Planalto.
O Senado tem poderes que a Câmara não tem: aprovar indicações ao STF, tribunais superiores, embaixadas, PGR e Banco Central; fixar limites de endividamento da União e dos estados; julgar autoridades com foro privilegiado. Quem ocupar as vagas influenciará diretamente esses vetores nos próximos oito anos.
O que diz a pesquisa Datafolha mais recente
- Benedita da Silva (PT): 19%
- Carlos Jordy (PL) e Carlos Portinho (PL): 12% cada
- Pedro Paulo (PSD): 9%
- Marcelo Crivella (Republicanos): 7%
- Mônica Benício (PSOL): 6%
O cenário aponta fragmentação: nenhum nome passa de 20%, e a margem de erro pode embaralhar a ordem. Dois terços do eleitorado ainda não definiram o segundo voto — espaço para viradas nas últimas semanas.
Principais propostas por eixo temático
Judiciário e STF
- Mandatos fixos (8 a 12 anos) e fim de decisões monocráticas: Jordy, Portinho, Crivella, Marcos Dias, Mattos.
- Escolha popular ou lista tríplice de juízes de carreira: Ó Clemente, Marcos Dias, Waguinho.
- Nova sabatina periódica: Crivella.
Segurança pública
- Classificar facções como terroristas/narcoterroristas, acabar com progressão de pena e saidinhas para líderes: Jordy, Portinho, Pedro Paulo.
- Integração de forças, inteligência, urbanismo e câmeras corporais: Mattos, Mônica Benício, Vinícius Benevides.
- Exército treinando contingente de apoio: Pedro Paulo.
Trabalho e renda
- Fim da escala 6×1 (jornada 5×2): Benedita, Mônica Benício, Pedro Paulo, Vinícius Benevides.
- Salário mínimo de R$ 7,5 mil e jornada de 35h: Luiz Eugênio (PCO).
- Apoio a mães atípicas (auxílio, redução de jornada, estabilidade): Pedro Paulo, Comandante Ribeiro Afonso.
Economia e emendas
- Fim da “emenda Pix”, transparência e distribuição por município: Crivella, Pedro Paulo, Marcos Dias, Ó Clemente.
- Desoneração de folha, aumento do teto do MEI: Portinho.
- Redistribuição de royalties do petróleo por habitante: Waguinho.
Perfis que fogem ao script tradicional
Hélio Secco (Missão) — biólogo, doutor em Ciências Ambientais, propõe destinar metade das emendas a segurança e o restante a ciência, saneamento e recuperação de mananciais.
Luciano Mattos (PRTB) — ex-procurador-geral de Justiça, defende investigação policial robusta, câmeras corporais e ataque à estrutura financeira do crime organizado.
Mônica Benício (PSOL) — arquiteta urbanista, viúva de Marielle Franco, foca em orçamento continuado para universidades, SUS 100% público e direitos de trabalhadores de aplicativos.
Vinícius Benevides (UP) — camelô dos trens, propõe auditoria da dívida pública, fim de OSs na saúde, retomada da construção naval estatal e câmeras em todos os uniformes policiais.
O que observar até outubro
A campanha oficial começa em 16 de agosto. Debates televisionados e o horário eleitoral gratuito tendem a mover os indecisos — hoje a maioria do eleitorado. Fique atento à taxa de abstenção e votos nulos/brancos para o Senado; em 2022, ela superou 30% no estado, o que reduz o total de votos válidos necessários para vencer.
Outro termômetro: a migração de eleitores de Flávio Bolsonaro. Se ele for para o segundo turno presidencial, parte de sua base pode votar em Portinho ou Jordy por alinhamento ideológico. Se não, o voto pode dispersar entre Crivella, Pedro Paulo ou até Benedita.
Por fim, acompanhe as prestações de contas parciais no site do TSE. O volume de recursos autodeclarados e a origem dos doadores sinalizam quais candidaturas têm musculatura para chegar competitivas na reta final. O Senado não perdoa amadorismo — e os próximos oito anos do Rio começam a ser desenhados agora.
