Meio Ambiente

Como Niterói transformou lixo em 708 toneladas de renda e dignidade nas comunidades

Moradores de comunidades de Niterói separam resíduos recicláveis para coleta seletiva que atingiu 708 toneladas em 2025
Coleta seletiva em comunidades de Niterói salta para 708 toneladas de recicláveis em 2025, transformando lixo em renda e dignidade

Em 2025, a coleta seletiva em comunidades de Niterói atingiu 708 toneladas de materiais recicláveis — um salto de quase 3.000% frente às 24 toneladas do primeiro ano. O número representa 11% de tudo o que a cidade recolhe e esconde uma mudança de comportamento que vai muito além da estatística.

Moradores que antes jogavam tudo no mesmo saco hoje separam orgânicos, plásticos, papéis e vidros antes mesmo de sair de casa. O que parecia utopia virou rotina diária em 24 localidades.

O segredo está na cor do contêiner

A Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Clin) instalou 67 equipamentos coloridos: marrom para orgânicos, azul para recicláveis. A coleta acontece todos os dias, sem falhas. O material segue para uma área de transbordo e, dali, direto para cooperativas de catadores que fazem a triagem final e preparam tudo para o reaproveitamento industrial.

São cinco anos de operação contínua. O projeto “Comunidade Sustentável” começou em 2020 e, a cada ano, a adesão cresceu. A meta agora é adicionar mais cinco pontos até dezembro.

Da resistência ao hábito: o relato de quem vive a mudança

Iranir Alexandrina, moradora do bairro de Fátima, resume a nova rotina: “Todos os dias eu desço com três bolsas de lixo”. Ela separa garrafas PET, papelão e orgânicos em recipientes diferentes na própria cozinha. O gesto, repetido por centenas de vizinhos, virou cultura.

No início, a resistência foi real. Carlos Fonseca, presidente da associação de moradores do bairro de Fátima, lembra: “Os moradores não tinham essa noção dos malefícios que o lixo traz. A conscientização foi o mais difícil realmente”.

O time de campo fez a diferença. Garis formados em educação ambiental percorreram becos e vielas explicando, porta a porta, o destino de cada resíduo. Fábio Vigno Carvalho, um deles, confirma: “A princípio, até encontramos alguma resistência, mas quando elas são orientadas por nossa equipe passam a entender que realmente é um projeto que vai dar certo”.

Quando o lixão vira ponto de entrega organizada

Na comunidade do Bonfim, no Fonseca, a transformação é visível. Antes dos contêineres, o mesmo terreno recebia lixo de forma desordenada — sujeira, mau cheiro, risco sanitário. Hoje, a área tem pontos definidos, sinalizados e respeitados.

O resultado prático: fim do acúmulo, redução de vetores de doenças e uma logística que alimenta a cadeia de reciclagem em vez de onerar o aterro sanitário.

  • 24 toneladas coletadas em 2020 (ano de estreia)
  • 708 toneladas em 2025 — crescimento de 2.850%
  • 11% de todo o reciclável da cidade sai das comunidades
  • 67 contêineres distribuídos em 24 comunidades
  • 5 novos pontos previstos até dezembro

O que observar daqui para frente

A expansão dos pontos de coleta deve puxar o volume para cima, mas o gargalo real está na capacidade das cooperativas de processar o aumento. Se a triagem não acompanhar o ritmo da coleta, o material pode voltar a se acumular — agora nas centrais, não nas ruas. Outro termômetro: a manutenção da adesão espontânea sem campanhas permanentes de conscientização. O hábito consolidado resiste a cortes de verba ou trocas de gestão? A resposta virá nos próximos balanços anuais.