Diante de 700 dos principais executivos do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) misturou defesa rigorosa do equilíbrio fiscal com propostas radicais de reforma institucional e ataques pessoais contundentes. O encontro, promovido pela Esfera Brasil no hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, serviu de palco para um discurso que oscilou entre o técnico, o eleitoral e o visceral.
O recado ao mercado: “Estabilidade fiscal é obrigação, não mérito”
Lula foi direto ao ponto que mais interessa à plateia: as contas públicas. Afirmou ter herdado déficit de 2,8% do PIB e projeta superávit de 0,1% para este ano. A mensagem central foi a de que o ajuste não virá à custa de cortes na Previdência ou em programas sociais.
“Quando você fala em cortar gasto na Previdência, está tornando o pobre mais pobre”, declarou, defendendo que responsabilidade fiscal e social devem caminhar juntas. O presidente cobrou ainda a recuperação do grau de investimento, alegando que o risco-país caiu, mas as agências de rating não reconheceram o avanço.
O ataque pessoal a Daniel Vorcaro e a defesa do “empresário desaforado”
O momento de maior tensão veio ao citar o dono do Banco Master. Sem meias palavras, Lula classificou Daniel Vorcaro como “malandro” que “conseguiu corromper todo mundo”, alternando dinheiro e “orgia”.
Em contraponto, elogiou o que chamou de “empresários desaforados” — aqueles que ousam ir além do óbvio. Citou nominalmente um empresário chamado Joel, que estaria migrando da venda de carros para a produção de foguetes e mísseis, como exemplo do perfil necessário para a nova industrialização.
A bomba institucional: mandato para ministros do STF e reforma no Judiciário
Lula propôs abrir debate sobre a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), sugerindo a substituição da vitalicidade por mandatos. “A sociedade vai ter que se manifestar, porque o que está acontecendo não é bom para o país”, afirmou.
A fala coloca no centro da mesa uma reforma estrutural no Poder Judiciário, tema sensível que vai muito além da pauta econômica imediata dos presentes.
Agências “cooptadas” e o caso da ANP em home office
O presidente direcionou artilharia pesada às agências reguladoras, com foco na ANP (Petróleo e Gás). Relatou ter convocado a direção da autarquia para explicar falhas na fiscalização.
Segundo Lula, a justificativa apresentada foi o número de servidores em trabalho remoto. “Então não tem como fiscalizar”, ironizou. Defendeu que as agências voltem a regular, enquanto a definição de política pública cabe ao Estado eleito.
Soberania, minerais críticos e a “nossa” inteligência artificial
Lula vinculou a eleição à defesa da soberania nacional. Criticou a exportação in natura de terras raras e minerais críticos, exigindo processamento industrial no Brasil com transferência de tecnologia.
- Data centers: Elogiou o programa Redata, mas alertou para o consumo energético; não podem disputar eletricidade com a sociedade.
- IA nacional: “Não quero ficar brigando entre a China e os EUA. Quero a nossa”, disse, apostando na capacidade brasileira de competir com as potências.
- Relação com EUA: Afirmou que o Brasil “aprendeu a não baixar a cabeça” e negociará com reciprocidade.
A ironia sobre o Banco Central independente: “Virou um zoo”
Em trecho que arrancou risos e desconforto, Lula lembrou que manteve Henrique Meirelles por oito anos à frente do BC em seus mandatos anteriores. “Vocês brigaram pelo Banco Central independente… mas agora virou um zoo. Vocês que pediram, não fui eu”, provocou.
A fala expõe o atrito entre a autonomia formal da autarquia e a insatisfação do Planalto com a atual condução da política monetária e dos juros elevados.
Plateia de peso, saídas discretas e o tom de palanque
Estavam lá CEOs da Vale, JBS, Motorola, Itaú, BR Partners, Cosan, EDP, Axia e Brookfield. O pedido do chefe da Brookfield, Marcos Almeida, resumiu a ansiedade do setor: “Lute para reconquistar o grau de investimento”.
Apesar da lotação acima do esperado, executivos deixaram o salão antes do fim do discurso — a justificativa oficial foi o trânsito paulistano. O evento encerrou com Lula pedindo votos explícitos no primeiro turno, vendendo a chapa “Lula com Chuchu” como a única experiência testada para governar o país.
O que observar daqui para frente
A convergência entre o discurso fiscal ortodoxo e a agenda heterodoxa de reformas institucionais (Judiciário, agências, BC) será o termômetro dos próximos meses. Três pontos definem o cenário para o investidor:
- Entrega efetiva do superávit primário de 0,1% sem contingenciamentos drásticos.
- Tração política da proposta de mandato para ministros do STF no Congresso.
- Desdobramento prático da tensão entre o Planalto e a diretoria do Banco Central na definição da Selic.
A fala de Lula não foi apenas um aceno ao mercado; foi a definição de um campo de batalha onde economia, instituições e eleição se fundem.
