Justiça

Você não vai acreditar: agricultor vende caminhonetes por R$ 225 mil, recebe cheques sem fundo e comprador oferece tratores que nunca chegam…

Agricultor Valter Ravagnani ao lado de caminhonete em Sertãozinho, vítima de golpe com cheques sem fundo e tratores não entregues
Agricultor espera há 4 meses receber R$ 225 mil por duas caminhonetes vendidas; cheques voltaram e tratores prometidos nunca chegaram.

Um agricultor de Sertãozinho (SP) está há quatro meses tentando receber R$ 225 mil pela venda de duas caminhonetes. Valter Donizete Ravagnani fechou o negócio em junho, recebeu dois cheques — de R$ 110 mil e R$ 115 mil — e ambos voltaram por falta de fundos. O comprador, José Martins de Azevedo Souza Neto, propôs então quitar a dívida com três tratores. Nenhum foi entregue até hoje.

O caso foi registrado na Polícia Civil como suspeita de estelionato. Enquanto a investigação avança, o vendedor acumula prejuízos que vão além do valor das caminhonetes.

O efeito cascata: reserva florestal em risco

Ravagnani não vendeu os veículos por capricho. Ele foi notificado pelo Ministério Público de Minas Gerais, em Frutal, para regularizar uma área de reserva florestal. Fechou a compra com uma empresa de reflorestamento e o vencimento caiu na última sexta-feira (25).

Sem o dinheiro combinado, precisou ligar para o credor e pedir prazo extra. “Era hoje que era para mim pagar. Tive que ligar lá e pedir para a pessoa esperar mais um pouco”, relatou o agricultor à imprensa local.

Três tratores, zero entrega: a cronologia da promessa

Segundo o vendedor, o comprador apresentou três alternativas sucessivas — e nenhuma se concretizou:

  • Primeiro trator: não foi enviado porque, segundo o comprador, estava quebrado.
  • Segundo trator: era de esteira, sem utilidade para a propriedade de Ravagnani.
  • Terceiro trator: avaliado em cerca de R$ 150 mil, prometido para a semana do dia 23. Não apareceu.

“Toda vez ele me liga confortando que vai pagar, mas não paga. Já se passaram quatro meses e isso está sendo uma agonia”, desabafa o agricultor. Ele prefere receber em dinheiro: se aceitar máquinas, terá de revendê-las com deságio para honrar o compromisso em Minas Gerais.

Negócio selado no “fio do bigode”

Não houve contrato formal. A negociação nasceu de uma indicação: um conhecido de cerca de oito anos, com quem Ravagnani já havia feito negócios sem problemas, apresentou José como grande produtor rural com propriedades em Ribeirão Preto (SP).

O vendedor conheceu o comprador no dia da transação. Entregou as caminhonetes, assinou as autorizações de transferência e confiou. “Meu pai sempre me falou que nome é melhor você não ter dinheiro, mas ter nome. Com nome você consegue tudo. É o famoso fio do bigode que os antigos falavam”, resume.

O que diz a defesa e o que alega o comprador

O advogado Daniel Pacheco, que representa Ravagnani, aponta indícios de estelionato — crime que consiste em obter vantagem mediante fraude. Ainda assim, a prioridade declarada é a composição amigável: “Havendo uma situação em que os dois estão confortáveis, não há por que continuar essa discussão.”

Em nota, José Martins de Azevedo Souza Neto nega ser criminoso ou estelionatário. Afirma que a negociação possui “circunstâncias relevantes” não divulgadas, que mantinha tratativas com o vendedor e que está reunindo documentos para apresentar às autoridades. Diz ter sido “profundamente e negativamente afetado” pela repercussão do caso.

O que observar daqui para frente

O inquérito policial deve apurar se houve intenção de lesar desde o início ou se o inadimplemento decorre de dificuldades financeiras supervenientes. Para empresários e produtores rurais, o episódio reforça dois alertas práticos: cheques pós-datados não são garantia de pagamento e acordos verbais, por mais arraigados na cultura do campo, deixam o vendedor exposto a riscos que um contrato bem redigido mitigaria.

Enquanto a Justiça não decide, Ravagnani segue negociando o prazo da reserva florestal — e esperando que a quarta promessa de pagamento, enfim, saia do papel.