Internacional

Trump flexibiliza regras de consumo e conta de US$ 185 bi fica para o motorista

Trump assina ordem executiva sobre flexibilização de metas de eficiência veicular nos EUA
Nova regra reduz exigência de consumo médio de 21,4 para 14,7 km/l até 2031

O Departamento de Transportes dos EUA publica na segunda-feira (28) novas metas de eficiência veicular que enterram o plano agressivo de eletrificação da era Biden. A medida derruba a exigência de frota média de 21,4 km/l para 14,7 km/l até 2031 — uma redução de 31% na ambição original.

O governo vende a mudança como alívio imediato no bolso: cada carro novo sairia, em média, US$ 930 mais barato. Mas as contas do próprio órgão revelam o outro lado da moeda.

O que muda na prática para quem compra e quem produz

Montadoras ganham fôlego para seguir vendendo SUVs e picapes a combustão sem penalidades pesadas. Para o consumidor, o preço de etiqueta cai, mas a conta no posto sobe. A projeção oficial aponta 100 bilhões de galões extras queimados até 2050 — volume suficiente para abastecer toda a frota nacional por mais de dois anos.

Em dinheiro: US$ 185 bilhões a mais em combustível no mesmo horizonte. Em carbono: cerca de 5% de emissões adicionais, segundo o Departamento de Transportes.

Comparativo rápido: metas de ontem vs. metas de hoje

  • Governo Biden: 8% ao ano (2024-25), 10% (2026), 2% ao ano (2027-31) — alvo final 50,4 mpg (21,4 km/l)
  • Governo Trump: revisão retroativa para baixo em 2022, depois 0,25% a 0,5% ao ano até 2031 — alvo final 34,5 mpg (14,7 km/l)
  • Impacto no preço do veículo: -US$ 930 (estimativa oficial)
  • Impacto no bolso do motorista: +US$ 185 bi em gasolina até 2050

O momento da decisão pesa contra o discurso

O anúncio chega enquanto motoristas americanos absorvem a alta nos combustíveis desencadeada pelo conflito entre EUA, Israel e Irã, iniciado no fim de fevereiro. Reduzir a eficiência obrigatória justamente quando o litro dispara cria um descompasso político difícil de ignorar.

Pete Buttigieg, ex-secretário dos Transportes, resumiu a crítica: a flexibilização “entrega à China o futuro das tecnologias limpas e obriga americanos a pagar mais na bomba”. A indústria chinesa de baterias e veículos elétricos já domina cadeias globais; frear a demanda interna pode consolidar essa liderança.

Cenários para os próximos meses

Montadoras terão de recalcular planos de produto. Algumas já investiram bilhões em plataformas elétricas para cumprir as metas antigas — dinheiro que agora corre risco de subutilização. Outras podem adiar lançamentos de híbridos e elétricos, alongando a vida de motores a combustão.

No Congresso, a briga deve migrar para o orçamento: subsídios à compra de EVs, créditos de carbono e infraestrutura de recarga viram moeda de troca. Estados como Califórnia já sinalizam que manterão regras próprias mais duras, criando um mosaico regulatório.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem se a aposta de curto prazo vira prejuízo de longo prazo: a trajetória do preço do petróleo, a velocidade da queda no custo de baterias e a resposta da concorrência chinesa e europeia. Se o barril seguir alto e as baterias continuarem barateando, a janela para lucrar com veículos ineficientes fecha rápido — e a conta dos US$ 185 bilhões chega antes do previsto.