Educação

R$ 2,7 bi em dívida e 9 planos: o que muda na escola do seu filho?

Escola pública do Rio de Janeiro com alunos em sala de aula, representando crise educacional e dívida de R$ 2,7 bi
Escola estadual fluminense reflete desafios da educação com dívida bilionária e metas de melhoria até 2042.

O Rio de Janeiro carrega uma dívida de R$ 2,7 bilhões com a educação e ostenta notas no Ideb abaixo da média nacional. O próximo governador herdará esse passivo e a obrigação de reverter o quadro até 2042. Nove candidatos apresentam receitas distintas, mas poucas detalham de onde virá o dinheiro.

O termo de ajuste assinado com o Ministério Público parcela o rombo por quase duas décadas. Enquanto isso, o ensino médio fluminense figura entre os piores do país. A eleição de 4 de outubro definirá qual modelo de gestão — e de prioridade orçamentária — será testado nas salas de aula.

O eixo “mercado e tecnologia” domina metade das chapas

Cinco candidatos apostam na vinculação direta entre currículo e demanda econômica regional. André Marinho (Novo) propõe o “Aprendiz Rio”: 200 mil jovens de 15 a 18 anos dividindo a semana entre escola (três dias) e empresas (dois dias) com carteira assinada e bolsa de até R$ 1,2 mil. A meta inclui letramento em inteligência artificial universal até 2030.

Anthony Garotinho (Republicanos) batiza seu programa de “Geração Fluminense”, com jornada de 8 a 9 horas diárias misturando disciplinas tradicionais, educação financeira e esportes. O diferencial é o “Geração Tech”, cursos técnicos alinhados às vocações de cada município, além de atendimento de saúde mental nas unidades.

Douglas Ruas (PL) foca em “gestão por resultados”. O plano prevê bonificações para professores que baterem metas de aprendizagem e diagnóstico individual de defasagem em português e matemática no ingresso do ensino médio. Em áreas retomadas do crime, a aposta são “complexos de cidadania” com ensino integral noturno.

Eduardo Paes (PSD) e Coronel Busnello (Missão) convergem na reestruturação da Faetec e na expansão do ensino médio profissionalizante integral. Busnello adiciona prazo: internet de alta velocidade em 100% das escolas até o fim do segundo ano de mandato e reativação de CIEPs ociosos como centros comunitários nos fins de semana.

De olho na carreira docente: do piso nacional ao salário de R$ 8,5 mil

A valorização do magistério aparece em todos os planos, mas a profundidade varia. Garotinho e Busnello comprometem-se com o cumprimento do piso nacional (hoje em R$ 5.130,63 para 2026) e a reestruturação do plano de carreiras. Busnello propõe bonificações atreladas a metas de aprendizagem e o programa “Professor Formador”, dividindo a jornada entre sala de aula e formação de pares.

William Siri (PSOL) vai além: defende plano de carreira unificado, regulamentação da data-base, garantia do terço de jornada para atividades extraclasse e novos concursos para reduzir terceirizações. A meta ousada é limitar turmas a 30 alunos, climatizar e adequar acusticamente todas as salas, além de merenda 100% agroecológica com metade comprada da agricultura familiar.

No extremo oposto da tabela salarial, Luan Monteiro (PCO) estabelece um piso mínimo de R$ 8,5 mil para jornada de 30 horas semanais. O plano inclui eleições diretas para direção de escolas e revogação das reformas educacionais pós-2016, mas não apresenta metas de infraestrutura ou expansão de vagas.

Universalização e fim das terceirizações: a ala da expansão estrutural

Três candidaturas colocam a ampliação física da rede e o fim da iniciativa privada no centro. Cyro Garcia (PSTU) condiciona a construção de escolas e creches em favelas e subúrbios à taxação de grandes fortunas. Propõe suspender o Novo Ensino Médio imediatamente, ampliar universidades estaduais (Uerj, Uenf, Faetec) e efetivar todos os terceirizados.

Juliete Pantoja (UP) fixa a meta mais agressiva de tempo integral: 100% da rede estadual até 2030. O plano inclui erradicação do analfabetismo em um ano, passe livre intermunicipal, auxílio-permanência e concurso público para substituir temporários. A candidata também veta recursos públicos para instituições privadas.

Siri (PSOL) estabelece um marco operacional curto: 30 CIEPs em funcionamento integral já no primeiro ano e triplicar matrículas no ensino médio técnico via Faetec. A proposta inclui renda básica estudantil para famílias no CadÚnico, café da manhã e jantar na merenda, além de equipes fixas de psicólogos e assistentes sociais.

  • Dívida ativa: R$ 2,7 bi a pagar até 2042 (TAC/MPRJ).
  • Ideb 2023: 6,1 (anos iniciais) e 5,1 (anos finais) — ambos abaixo da média nacional.
  • Ensino médio: Entre os piores desempenhos do país.
  • Investimento mínimo: 25% da receita (descumprido por anos).

O que o eleitor deve cobrar nos debates finais

Todas as propostas esbarram na mesma trava: o orçamento. O estado gasta hoje o mínimo constitucional depois de anos de calote, e o parcelamento da dívida consome margem fiscal futura. Nenhum plano detalha com clareza como financiar climatização, internet, merenda de qualidade, novos concursos e expansão de jornada simultaneamente sem aumentar a receita ou cortar outras áreas.

Outro ponto cego é a implementação. Prazos como “até 2030” ou “progressivamente” surgem sem cronogramas anuais de obras, contratações ou aquisição de equipamentos. A busca ativa de evasão — presente em quase todos os programas — depende de estrutura de assistência social que hoje é municipal, exigindo pactos federativos que não estão garantidos.

Daqui para a frente, observe se os candidatos apresentam fontes de custeio permanentes (não apenas empréstimos ou venda de ativos) e metas anuais auditáveis para infraestrutura e carreira. O tamanho da fila por creches, a taxa de abandono no 1º ano do ensino médio e o percentual de escolas com laboratórios funcionando são indicadores mais concretos que promessas de “universalização”.