Internacional

O segredo do Estreito de Ormuz: Irã propõe reabertura em 7 dias, mas Trump diz não

Navios petroleiros e navios de guerra no Estreito de Ormuz sob tensão geopolítica
Estreito de Ormuz: 20% do petróleo mundial passa por este corredor estratégico disputado por Irã e EUA

O Irã colocou na mesa uma proposta para reabrir o Estreito de Ormuz em apenas sete dias, condicionada ao fim do bloqueio naval americano. A resposta de Washington, porém, chegou fria: segundo o Wall Street Journal, Donald Trump rejeitou o acordo. O impasse mantém 20% do petróleo global refém de uma disputa que pode escalar após novembro.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou na ONU que o plano já está pronto e prevê cessar-fogo, inspeções nucleares e retomada do fluxo comercial. Mas a Casa Branca sinaliza que não há pressa para ceder.

O que está em jogo no Estreito de Ormuz

Cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural liquefeito do planeta passava pelo estreito antes do conflito. O fechamento provocou oscilações violentas nos preços da energia e forçou rotas alternativas mais longas e caras. Para o mercado, a reabertura não é apenas geopolítica: é uma variável direta no custo do barril e na inflação global.

Dados da Kpler, citados pela Reuters, mostram que o tráfego caiu para uma média de 18 trânsitos por dia nos últimos dez dias, com picos de apenas nove embarcações. Antes da escalada, o volume era significativamente maior.

A anatomia da proposta iraniana

O memorando de entendimento (MOU) assinado em 18 de junho previa 14 pontos. O Irã diz que cumpriu sua parte e agora cobra a contrapartida americana. Em linhas gerais, a oferta atual inclui:

  • Cessar-fogo imediato de sete dias.
  • Reabertura total da passagem marítima.
  • Retomada das negociações nucleares com inspeção da ONU.
  • Fim do bloqueio aos portos iranianos e alívio de sanções.

Araghchi foi direto: “Se os EUA estiverem realmente empenhados, tudo já está preparado”. O presidente Masoud Pezeshkian reforçou que o processo começa no dia da aceitação e que inspetores nucleares são bem-vindos.

Por que Washington travou as negociações

Fontes do Wall Street Journal afirmam que Trump vê o Irã como pouco confiável e considera provável uma nova campanha de bombardeios após as eleições legislativas de novembro. Em discurso na ONU, o ex-presidente alternou entre a promessa de um acordo futuro e a ameaça de “aniquilar” a República Islâmica.

Um funcionário americano resumiu a posição de Washington à BBC: “Estamos em uma posição muito forte, com o controle do Estreito, então não temos pressa”. O bloqueio naval segue ativo, sufocando a economia iraniana.

O efeito dominó no Mar Vermelho

Enquanto Ormuz segue fechado, a tensão migrou para o sul. Houthis aliados do Irã intensificaram ataques no Mar Vermelho, mirando exportações sauditas. O grupo tomou trechos estratégicos da costa, incluindo o porto de Mokha, diante do Estreito de Bab al-Mandab — outro gargalo vital.

A Arábia Saudita pediu apoio militar direto a Trump. No fim de semana, a coalizão liderada por Riad interceptou mísseis e drones houthi. Dois estrangulamentos marítimos sob pressão simultânea ampliam o risco logístico para petroleiros e cargueiros.

O que observar daqui para frente

O calendário dita o ritmo: as eleições americanas de novembro funcionam como um relógio para ambas as partes. O Irã aposta na pressão do mercado de energia para forçar a mão dos EUA; Washington aposta na asfixia econômica para ditar os termos.

Três variáveis decidem o curto prazo:

  • Manutenção ou flexibilização do bloqueio naval americano até novembro.
  • Capacidade dos houthis de sustentar o cerco no Mar Vermelho.
  • Reação da OPEP+ a eventuais choques de oferta prolongados.

Se o bloqueio persistir, o prêmio de risco no petróleo tende a se consolidar em patamares elevados, impactando cadeias de suprimento e decisões de investimento em energia. O acordo de junho existe no papel — falta apenas a vontade política para tirá-lo da gaveta.