O número de lavanderias de autoatendimento no estado de São Paulo saltou de menos de 400 para 2 mil unidades em apenas quatro anos. O Brasil todo acompanha o ritmo: eram 1,5 mil estabelecimentos em 2022 e já passam de 8 mil em setembro de 2024. O que está por trás dessa expansão de 430%?
A resposta mistura demografia, imóveis encolhidos e uma geração que troca tempo por conveniência. Mas o tamanho do mercado — e os números que ninguém comenta — revelam oportunidades e armadilhas para quem pensa em investir.
O empurrão que veio do Censo
O Brasil tem 87% da população em áreas urbanas. Segundo o IBGE, a área ocupada por comércios e moradias nas cidades cresceu 12,3% entre os últimos censos. Apartamentos menores significam menos espaço para máquina de lavar e, principalmente, para varal.
O vazio deixou de ser preenchido por lavanderias tradicionais. O modelo que explode agora é o self-service: tecnologia, franquia e preço acessível que caiu no gosto das classes B e C. Tudo começou no Rio de Janeiro, migrou para São Paulo — que hoje concentra 25% das unidades nacionais — e segue para o interior.
Quanto dinheiro circula nesse mercado
O setor movimentou R$ 6,2 bilhões em 2023, com crescimento médio anual de 4,8% desde 2020, segundo a Abralav. No franchising, o segmento de Limpeza e Conservação liderou a expansão no segundo trimestre de 2026: alta de 17,6% e faturamento de quase R$ 685 milhões em três meses (dados da ABF).
Dois nomes ilustram o ritmo:
- 5àsec (franquia francesa do Grupo Froth): faturou R$ 330 milhões em 2025 e cresceu 12,4% no primeiro semestre de 2026.
- LavPop (autosserviço do mesmo grupo): salto de 78% entre janeiro e junho de 2026.
Na capital paulista, notas fiscais do setor somaram R$ 468,69 milhões em 2024 (+18% sobre 2023). Até agosto de 2025, já eram R$ 336,13 milhões.
O cálculo para quem quer abrir uma unidade
O investimento inicial varia entre R$ 70 mil e R$ 400 mil, dependendo da rede e do porte. O retorno médio estimado fica entre 12 e 48 meses, com potencial de lucratividade de até 60%, segundo a Abralav.
Mas Othon Barcellos, presidente da Anel, coloca os pés no chão: faturamento depende de sazonalidade, número de máquinas, localização e qualidade da lavagem. “Ao contrário do que pode se pensar, os donos têm trabalho, sim”, afirma.
Onde a saturação já bate à porta
Bairros nobres da capital paulista — Moema, Itaim Bibi, Higienópolis e Tatuapé — já estão saturados. Quem entrar agora nesses endereços disputa o mesmo cliente com concorrentes consolidados.
A projeção da Anel aponta para 10 mil unidades no país até 2030 e o triplo disso até 2050. O espaço para crescer existe, mas migrou para regiões periféricas e cidades médias do interior.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o próximo ciclo: a velocidade de expansão das redes para fora dos grandes centros, a resposta do consumidor a eventuais aumentos de custo de energia e água, e a entrada de players de tecnologia oferecendo gestão remota e aplicativos de fidelidade. Quem monitorar esses vetores — e evitar bairros saturados — sai na frente.
