Cultura

O segredo que ninguém conta: por que a seleção de Ancelotti gira em círculos

Carlo Ancelotti observando a Seleção Brasileira em campo com formação tática 4-2-4
Ancelotti à beira do campo enquanto o Brasil tenta quebrar a defesa australiana com posse estéril

A seleção brasileira voltou a campo contra a Austrália e o roteiro se repetiu: posse de bola estéril, laterais isolados e um meio-campo que não encontra o último passe. O diagnóstico é direto — sem um camisa 10, o 4-2-4 de Carlo Ancelotti condena o time a girar em torno de si mesmo.

A pergunta que fica é se o técnico italiano terá coragem de mudar antes que o ciclo se torne irreversível.

O meio-campo que não cria e o ataque que não tem espaço

O esquema com dois volantes e quatro homens de frente parece ofensivo no papel. Na prática, Bruno Guimarães e Danilo tentaram enfiadas longas e inversões de lado, mas a ausência de um meia de ligação transformou a transição em um vai-e-vem previsível.

Danilo, escalado no lugar de Casemiro, tem como virtude a chegada surpresa à área. Preso no duplo pivô, virou alvo fácil para a marcação australiana. O time tocou demais para o lado e para trás — exatamente o que Ancelotti prometera evitar.

Estêvão parado na ponta: o desperdício de um talento raro

O garoto do Chelsea foi o único a gerar perigo real. Todas as jogadas agudas nasceram quando ele recebeu aberto na direita e partiu em velocidade. O problema: encostado na linha lateral, Estêvão tem uma única opção — driblar para dentro.

Contra adversários organizados, essa previsibilidade será anulada. Seu repertório — visão de jogo, passe entrelinhas, chute de média distância — pede posição central. Como meia, ele gira para os dois lados, dita o ritmo e libera os laterais. Na ponta, vira um driblador isolado.

Raphinha e Endrick: reféns entre os zagueiros

O esquema posicional fixo empurrou a dupla de ataque para uma zona de desconforto. Raphinha vive fase brilhante no Barcelona jogando como falso 9, com liberdade para cair nas costas dos volantes e atacar o espaço. Na seleção, ficou encurralado entre os dois zagueiros australianos, de costas para o gol, sem mobilidade.

Endrick, por sua vez, só apareceu nas raras vezes em que Estêvão cortou para o meio e buscou a tabela. A conexão entre os dois existe, mas o desenho tático a torna episódica, não sistemática.

O caso Vini Jr.: fase ruim ou vítima do esquema?

Foi o pior brasileiro em campo. Desaparecido, tímido, desarmado com facilidade. Diferente dos companheiros, seu apagão não se explica apenas pelo desenho tático — o camisa 7 atravessa momento técnico delicado no Real Madrid.

A pergunta incômoda surge naturalmente: insistir no titular absoluto ou proteger o jogador (e o time) com um banco momentâneo? Ancelotti conhece Vini Jr. como poucos. A decisão dirá muito sobre a hierarquia interna do vestiário.

A solução que Ancelotti resiste a testar

A alternativa tática é clara e já foi sugerida pelo próprio Casagrande: 4-3-3 com um meia criativo. A montagem natural seria:

  • Meia central: Estêvão — visão, mobilidade, chute, passe decisivo.
  • Ponta direita: Rayan — velocidade pura, 1 contra 1, profundidade.
  • Centroavante móvel: Raphinha — função que executa em alto nível no Barça.
  • Ponta esquerda: Vini Jr. (ou substituto) — com corredor livre para atacar a linha de fundo.

Esse desenho resolve três problemas de uma vez: oxigena o meio, liberta Estêvão e devolve a Raphinha o espaço onde ele decide jogos.

O que observar daqui para frente

Os próximos compromissos da Data FIFA serão o termômetro real. Três sinais indicarão se Ancelotti ajustou a rota:

  • Mudança de esquema ou apenas troca de peças dentro do 4-2-4?
  • Estêvão começa centralizado ou segue preso na direita?
  • Vini Jr. mantém a titularidade ou ganha “descanso estratégico”?

Se a resposta for “mais do mesmo”, a seleção entra em 2026 com o mesmo defeito de 2022: um time talentoso, competitivo, mas taticamente engessado. E em Copa do Mundo, previsibilidade custa caro.