Economia

O segredo que ninguém conta: Como a Brookfield lucra com juros nas alturas…

Executivos da Brookfield BGRE analisam mapa do Brasil com ícones de prédios, simbolizando aquisições agressivas apesar da Selic alta
BGRE acelera compras de imóveis apostando em escassez de estoque e migração para aluguel mesmo com juros elevados

A BGRE, braço imobiliário da Brookfield no Brasil, está comprando ativos agressivamente mesmo com a Selic em patamar restritivo, apostando que a escassez de novo estoque e a migração forçada para aluguel criam uma janela rara de valorização. A estratégia, no entanto, vai muito além de simplesmente adquirir prédios vazios. O segredo está em saber exatamente onde e como alocar capital enquanto o mercado hesita.

Por que o momento atual assusta — e atrai — os grandes fundos

Com 125 anos de Brasil, a gestora atravessou ciclos suficientes para saber que juros altos funcionam como uma peneira: eliminam competidores amadores e derrubam o preço de entrada em ativos de qualidade. O presidente Hilton Rejman resume a tese da matriz canadense: “Ela sabe a hora de acelerar e a hora de frear”. Na prática, isso significa focar em três pilares — escritórios, logística e residencial para locação (multifamily) — comprando ativos prontos ou em fase final, evitando o risco de desenvolvimento do zero (greenfield) quando o custo do dinheiro torna a conta inviável.

O resultado imediato é uma carteira diversificada que dilui risco: 900 mil m² de lajes corporativas, 1,8 milhão de m² em parques logísticos e mais de 6.000 unidades multifamily. Cada segmento responde a um vetor de demanda distinto, blindando o portfólio contra choques setoriais.

O efeito nos pequenos negócios: multifamily e a fuga do financiamento

O residencial para locação é o exemplo mais nítido de como a taxa de juros vira aliado. Com o financiamento imobiliário caro, o brasileiro médio adia a compra da casa própria e migra para o aluguel profissional. A BGRE captura essa demanda adquirindo empreendimentos inteiros de incorporadores — muitas vezes antes da conclusão da obra — e operando com gestão institucional: aplicativo de serviços, lavanderia, mercadinho, programação de comunidade.

Não depende do humor de um proprietário pessoa física. O inquilino fecha contrato com uma empresa que responde por manutenção, segurança e experiência. O modelo ainda engatinha no país, mas a curva de adoção acelerou nos últimos 24 meses justamente pelo custo de capital.

Logística: a aposta que não depende só de e-commerce

Os 1,8 milhão de m² em galpões estão concentrados no entorno dos grandes centros urbanos — Guarulhos, São Bernardo, Barueri, Campinas, Brasília, Rio e Nordeste. A flexibilidade é a moeda: os mesmos ativos atendem Mercado Livre e Shopee, mas também indústria automobilística, frios e a Martin Brower, maior distribuidora do McDonald’s no Brasil.

A reforma tributária pode redistribuir incentivos estaduais, mas a proximidade do consumidor final continua ditando a localização. Quem tem last mile resolvido não sai do lugar por causa de alíquota.

Escritórios: a volta que ninguém previu e a conta que não fecha para novo estoque

A narrativa de “fim do escritório” morreu em 2022. A absorção líquida entre 2022 e 2026 bateu recordes históricos e a taxa de ocupação da BGRE recuperou-se de 75% — queda causada pela aquisição de dois grandes portfólios com vacância herdada — para 92% hoje. Quatro dos seis prédios no Rio de Janeiro estão 100% locados.

O gargalo é oferta: um edifício comercial leva 5 a 6 anos para ficar pronto. Quem percebeu o movimento de volta em 2022 só entregará produto em 2027-2029. Resultado: aluguéis subindo forte. Na Faria Lima, pedidas de R$ 350 a R$ 400/m²; na Chucri Zaidan, salto de R$ 80 para R$ 150/m²; na Paulista, R$ 170 a R$ 200/m² com vacância próxima de zero.

Bancos e grandes corporações disputam andares contíguos. No Parque da Cidade, sede da própria BGRE, não há bloco único de 4.000 m² disponível — só frações espalhadas.

Rio de Janeiro: o laboratório de retrofit que encurta ciclos

Um terço do portfólio corporativo (300 mil m² em 6 edifícios) fica na capital fluminense, impulsionado pela retomada de óleo e gás. O Edifício Ventura fechou 15 mil m² com EY e Dataprev, chegando a 90% de ocupação. O Aqua, na zona portuária, opera a 75% e segue em comercialização.

Mas o diferencial está no retrofit de vocação. Dois casos emblemáticos:

  • Edifício Glória (Cinelândia): centenário convertido 100% em multifamily — já a ~90% de ocupação.
  • Edifício A Noite (Praça Mauá): ícone histórico arrematado em leilão, em retrofit para residencial em parceria com a Azo.

Em São Paulo, disputas judiciais e fragmentação de donos travam projetos similares. No Rio, a governança mais fluida permite transformar ativos ociosos em receita recorrente em fração do tempo de um greenfield.

O que observar daqui para frente: sinais de virada de ciclo

A separação de marcas — Brookfield (investidora) e BGRE (operadora) — não altera a execução, mas sinaliza foco: a gestora quer ser a melhor proprietária-operadora do país, não apenas um allocator de capital. Para o investidor ou empresário que monitora o setor, três variáveis ditam o próximo movimento: taxa de vacância em lajes AAA (se cair abaixo de 5%, novos desenvolvimentos voltam à mesa), spread entre cap rate e custo de dívida (fechamento abre espaço para aquisições alavancadas) e velocidade de licenciamento de retrofit em SP (desbloqueio liberaria estoque residencial de qualidade no centro expandido).

Quem tem caixa e paciência para atravessar 2025 com Selic alta colhe os ativos que o mercado forçado a vender hoje. A conta fecha para quem não precisa vender amanhã.