A picanha subiu 7,8% nos primeiros 44 meses do governo Lula 3, contra 33,4% no período equivalente da gestão Bolsonaro. Mas o alívio no bolso não é tão simples quanto parece.
O ritmo desacelerou, porém o preço final continua assustando o consumidor médio. Entender o porquê exige olhar além da disputa política.
O que os números realmente mostram
Dados do IPCA compilados pelo economista Fábio Romão (4intelligence) revelam a disparidade: entre janeiro de 2020 e agosto de 2022, o corte nobre acumulou alta de 33,4%. No governo anterior completo (até dezembro de 2022), o salto foi de 38%.
Já na gestão atual, de janeiro de 2023 a agosto de 2026, a variação ficou em 7,8%. A diferença é brutal, mas esconde um detalhe crucial: a base de comparação já estava nas alturas.
Em agosto de 2019, o quilo de carnes de primeira custava R$ 23,61 em São Paulo (Dieese/Procon-SP). Em agosto de 2022, saltou para R$ 42,54. No mesmo mês de 2026, atingiu R$ 50,49.
Oferta recorde mascara a dor do consumidor
Segundo Romão, a desaceleração não vem de decisões de Brasília, mas do ciclo da pecuária. Em 2025, o Brasil abateu 42,9 milhões de bovinos — recorde histórico desde 1997, segundo o IBGE.
Esse volume, 8,2% acima de 2024, inundou o mercado e segurou os reajustes. Paralelamente, o endividamento das famílias travou a capacidade de absorver novas altas.
- Consumo per capita: caiu para 24,94 kg em 2021; recuperou para 30,79 kg em 2024.
- Projeção 2026: Safras & Mercado estima queda para 28,08 kg.
- Substituição: frango, suínos, ovos e embutidos ganharam espaço na cesta.
Alimentação no domicílio: o pesadelo silencioso
Desde abril de 2020, a comida em casa subiu 60,8%, enquanto o IPCA geral avançou 42,7%. No recorte dos 44 meses de Lula 3, a alta foi de 12,9% contra 54,2% no mesmo intervalo de Bolsonaro.
A taxa menor alivia, mas incide sobre um patamar já corroído. O “mal-estar” citado por Romão nasce exatamente aí: a inflação desacelerou, mas o poder de compra não recuperou o perdido.
O ciclo virou: prepare-se para o repique
Fernando Iglesias (Safras & Mercado) alerta: a retenção de fêmeas para reprodução sinaliza inversão do ciclo pecuário. Menos abate à frente significa menos oferta e pressão de alta nos cortes nobres — picanha, alcatra, maminha, filé mignon.
Some-se a isso o risco climático. O El Niño previsto para o final de 2026 pode atrapalhar pastagens e safras de grãos, encarecendo a ração e, consequentemente, a arroba.
E a cerveja do churrasco?
O acompanhamento citado por Lula em 2022 subiu 19,5% no governo atual (jan/2023 a ago/2026). No período equivalente de Bolsonaro (jan/2019 a ago/2022), a alta foi quase idêntica: 19,2%. Nesse item, a disputa política não encontra respaldo nos dados.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o preço do churrasco nos próximos trimestres: a velocidade da retenção de fêmeas no campo, a intensidade do El Niño sobre a safra de milho/soja e a trajetória do endividamento das famílias. Se a renda real não acelerar, a troca de proteína continuará sendo a principal válvula de escape do orçamento doméstico — e a picanha seguirá como termômetro político, mas cada vez mais distante da mesa do trabalhador médio.
