Economia

Lula detona Vorcaro, pede reforma no STF e avisa: ‘Fiscal é obrigação, não mérito’

Lula discursa para empresários no Hotel Tivoli Mofarrej em São Paulo
Presidente Lula critica Vorcaro e defende reforma no STF durante encontro da Esfera Brasil

Diante de 700 dos maiores empresários do país, Lula disse que estabilidade fiscal não é mérito, mas obrigação. Mas foi o ataque pessoal a um banqueiro e a defesa de mandato para ministros do STF que roubaram a cena. O que mais o presidente guardou para o fechamento do discurso?

A âncora fiscal e a rejeição ao corte social

No Hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, o presidente abriu o encontro organizado pela Esfera Brasil reafirmando a meta de superávit primário de 0,1% para este ano, revertendo o déficit de 2,8% herdado da gestão anterior. A plateia — formada por CEOs da Vale, Itaú, Cosan, J&F e Brookfield — ouviu a promessa de que o ajuste não passará por tesourada na Previdência nem em programas de inclusão.

“Tornar o pobre mais pobre é o que se fez historicamente e não deu certo”, afirmou. A responsabilidade social, segundo ele, deve caminhar ao lado da fiscal. Ainda assim, cobrou o grau de investimento perdido, revelando ter procurado agências de rating nos EUA para questionar a demora na reclassificação, mesmo com o risco-país em queda.

A bomba no Judiciário e o nome de Vorcaro

O momento de maior tensão veio quando Lula defendeu uma reforma estrutural no Judiciário. Propôs discutir a forma de escolha dos ministros do STF e a substituição do vitalício por mandatos definidos. “A sociedade vai ter que se manifestar, porque o que está acontecendo não é bom para o país”, disse.

Em seguida, direcionou artilharia pesada a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, presente em investigações recentes:

  • Acusação direta: “Esse Vorcaro devia ser um malandro mesmo… conseguiu corromper todo mundo.”
  • Método: “O que ele não corrompeu com dinheiro, ele corrompeu com orgia.”

A fala deixou o silêncio no salão. Minutos antes, executivos de peso já haviam deixado o local alegando trânsito, mas a maioria permaneceu para ouvir o capítulo seguinte.

Agências reguladoras: “Cooptadas” pelo setor privado?

Lula mirou na ANP (Agência Nacional do Petróleo), reclamando da fiscalização frágil. Relatou ter convocado a diretoria para explicar a estrutura de trabalho remoto, que, segundo o relato do próprio dirigente, inviabilizaria a inspeção de campo.

“As agências vão ter que voltar a ser agência reguladora. Quem define a política pública é o Estado brasileiro”, decretou. O recado vale para todo o arcabouço regulatório: o Executivo não aceitará autarquias capturadas por interesses setoriais.

Minérios, dados e a briga por soberania tecnológica

Na seara econômica, o presidente desenhou três vetores que devem ditar os próximos anos:

  • Industrialização de minerais críticos: Terras raras e insumos estratégicos devem ser processados no Brasil, não apenas exportados in natura. Investimento estrangeiro é bem-vindo, mas sob “comando nacional” e com transferência de tecnologia.
  • Data centers e energia: Elogiou o incentivo tributário (Redata), mas alertou: o consumo elétrico não pode competir com o abastecimento residencial e industrial. A expansão da geração é pré-condição.
  • IA própria: “Não quero ficar brigando entre a China e os Estados Unidos. Quero a nossa.” Lula aposta que o Brasil tem competência para disputar a fronteira da inteligência artificial.

Marcos Almeida, CEO da Brookfield no Brasil (dona de metade da Ascenty), resumiu a demanda do capital privado: “Lute para reconquistar o grau de investimento” — porta de entrada para novos projetos de infraestrutura.

O recado final: BC independente virou “zoo” e o pedido de voto

O tom eleitoral tomou conta do fim do discurso. Lula ironizou a autonomia do Banco Central, conquistada a pedido do setor financeiro: “Vocês brigaram… tinha que ser bom, mas agora virou um zoo. Mas vocês que pediram, não fui eu”.

Colocou a chapa “Lula com Chuchu” (referência a Geraldo Alckmin) como a única com experiência comprovada — 16 anos no governo paulista e 12 na Presidência. Fechou com a síntese da campanha: “Enquanto eu for presidente, o dono disso aqui chama-se povo brasileiro”.

O que observar daqui para frente

Três sinais práticos merecem monitoramento nas próximas semanas: (1) a tramitação de qualquer proposta de mandato para ministros do STF no Congresso; (2) a reação do Banco Central e do mercado à ironia presidencial sobre a autonomia da autoridade monetária; (3) os desdobramentos regulatórios na ANP e em outras agências, que podem redefinir o poder de fiscalização do Estado sobre setores estratégicos. O grau de investimento continua sendo a métrica única que alinha — ou separa — o discurso do resultado.