Saúde

Lisboa solta 90 mil mosquitos estéreis: a arma silenciosa contra a dengue que você precisa conhecer

Lisboa liberta 90 mil mosquitos estéreis Aedes albopictus contra dengue zika
Operação em Lisboa solta mosquitos machos estéreis para combater doenças tropicais sem inseticidas.

Lisboa está libertando 90 mil mosquitos machos estéreis nas ruas da capital portuguesa — e a razão vai muito além de um simples experimento científico. A estratégia mira o Aedes albopictus, vetor de dengue, zika e febre amarela, usando a própria biologia do inseto contra ele.

Os primeiros 60 mil já estão no ambiente. Nesta quinta-feira (24), outros 30 mil completam a operação. O método não usa inseticidas, não afeta abelhas e não oferece risco a humanos.

Por que soltar mais mosquitos parece loucura — mas funciona

A ideia é contra-intuitiva: inundar a área com machos que não picam e não geram filhotes. Eles competem com os machos selvagens pelas fêmeas. O resultado? Ovos que nunca eclodem. Geração após geração, a população despenca.

Chama-se Técnica do Inseto Estéril (TIE). Já funcionou contra a mosca-do-mediterrâneo em várias regiões do mundo. Agora, testa-se em escala urbana contra o mosquito-tigre-asiático.

O que você precisa saber sobre esses insetos

  • São todos machos — fêmeas são as que picam e transmitem doenças
  • São estéreis — criados em laboratório com radiação controlada
  • Vivem poucos dias — tempo suficiente para acasalar, nada mais
  • Não alteram o genoma — não há modificação genética, apenas esterilização

Moradores das freguesias abrangidas podem notar mais mosquitos voando nos próximos dias. A orientação das autoridades: não mate. Cada macho estéril que sobrevive é um acasalamento improdutivo a menos na natureza.

O inimigo invisível: Aedes albopictus em Portugal

O mosquito-tigre-asiático chegou a Portugal nos últimos anos e se adaptou bem ao clima urbano. Diferente do Aedes aegypti, ele tolera temperaturas mais baixas — o que expande o risco para regiões antes consideradas seguras.

Em 2023, Portugal registrou casos de dengue importados e monitora com atenção qualquer sinal de transmissão local. A presença do vetor é o primeiro degrau para surtos autóctones.

Medidas que continuam valendo — e muito

A soltura não substitui o básico. A regra de ouro segue imutável: eliminar água parada. Vasos de plantas, calhas, pneus velhos, tampas de garrafa. Qualquer recipiente vira berçário em dias quentes.

Repelentes, telas nas janelas e roupas longas em horários de pico (amanhecer e entardecer) continuam sendo a melhor barreira individual. O poder público mantém armadilhas de monitoramento e campanhas de educação.

O que observar daqui para frente

Os próximos meses dirão se a matemática da biologia fecha a conta. Técnicos vão comparar a densidade de ovos em ovitrampas nas áreas tratadas versus áreas controle. Se a curva cair, o modelo pode escalar para outras cidades portuguesas — e servir de referência para metrópoles brasileiras que convivem com o mesmo vetor há décadas.

Uma pergunta fica no ar: quanto tempo até vermos essa estratégia cruzando o Atlântico? A ciência já está pronta. O resto é logística, vontade política e dinheiro.