Uma mina no sul de Minas Gerais pode se tornar a peça-chave para os Estados Unidos romperem a dependência chinesa de terras raras — e o filho do presidente americano tem participação direta no negócio. A cadeia conecta uma mineradora australiana, uma processadora canadense e uma fábrica de ímãs financiada por Donald Trump Jr. O que está em jogo vai muito além de geologia.
O mapa da operação: do solo mineiro ao ímã americano
O Projeto Caldeira, da Meteoric Resources, abrange 19,2 mil hectares entre Andradas, Caldas e Poços de Caldas. A empresa já opera uma planta piloto que processou 43 toneladas de minério e produziu mais de 200 quilos de concentrado, com taxa de extração de 71% nos elementos magnéticos — resultado classificado como “excecional” pela própria mineradora.
O plano prevê fornecimento mínimo de 3.000 toneladas anuais de carbonato misto para a Ucore Rare Metals. A canadense separará os elementos em uma fábrica na Louisiana. O produto final segue para a Vulcan Elements, na Carolina do Norte, que fabricará ímãs para drones, satélites, equipamentos militares, semicondutores e veículos elétricos.
Onde entra o dinheiro da família Trump
Em agosto de 2025, o fundo 1789 Capital — do qual Donald Trump Jr. é sócio — aportou capital na Vulcan Elements. Seis meses depois, a fabricante assinou memorando com a Ucore para iniciar testes com amostras do material brasileiro. O fornecimento comercial deve começar em 2027.
A conexão política ganhou contornos adicionais quando a ProPublica revelou que Peter Navarro, assessor da Casa Branca, teria pressionado pela aceleração da análise do financiamento. Em 2025, o Pentágono anunciou compromisso condicional de empréstimo de US$ 620 milhões (cerca de R$ 3,2 bilhões) à Vulcan. As partes negam influência política na decisão.
Números que dimensionam o projeto
- Área total: 192 km² (78 títulos minerários)
- Recurso estimado: 1,6 bilhão de toneladas a investigar
- Vida útil projetada: mais de 20 anos
- Produção média anual: 12.500 toneladas de óxidos
- Destino garantido à Ucore: 3.000 toneladas/ano
- Licença prévia concedida: dezembro de 2025 (válida por 5 anos)
O entrave regulatório que pode mudar tudo
A exploração comercial ainda não começou. A Meteoric solicitou a licença de instalação em maio de 2026, mas uma nova variável entrou em cena: a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras, sancionada pelo presidente Lula em setembro de 2026.
A lei prevê análise federal de acordos internacionais de fornecimento que afetem a segurança econômica ou geopolítica do Brasil. Juristas divergem se o eventual contrato definitivo entre Meteoric e Ucore será submetido a esse crivo — o que poderia impor condições, prazos ou até bloquear a exportação do concentrado.
O tabuleiro geopolítico em Minas Gerais
O Caldeira não é caso isolado. Sete projetos disputam áreas no entorno da APA Pedra Branca. O mais avançado, Serra Verde (Goiás), já tem o governo americano como controlador. A movimentação de Flávio Bolsonaro e aliados, defendendo alinhamento Brasil-EUA em minerais estratégicos, sinaliza que o tema deve ocupar o centro do debate eleitoral e diplomático nos próximos meses.
O que observar daqui para frente
Três marcos definirão se a rota Minas-Louisiana-Carolina do Norte sai do papel: a concessão da licença de instalação pela Copam-MG, a posição do governo federal sobre a aplicação da nova lei de minerais críticos ao contrato Meteoric-Ucore e a capacidade da Vulcan de escalar a produção de ímãs com o aporte do Pentágono. Para investidores e empresários do setor, o sinal mais claro virá quando — e se — as primeiras toneladas deixarem o porto mineiro rumo aos EUA.
