O Brasil reúne os ativos mais cobiçados do planeta para a inteligência artificial, mas corre o risco de ficar apenas no potencial. O alerta veio do comando da maior gestora de ativos do mundo: temos a energia, falta o mapa regulatório para transformar vantagem natural em capital real.
Em evento em São Paulo, Bruno Barino, CEO da BlackRock Brasil, desenhou um cenário onde o país pode ser protagonista ou espectador. A diferença está nas próximas decisões de Brasília e das boardrooms.
A equação que coloca o Brasil no tabuleiro global
Data centers devoram eletricidade como nenhuma outra infraestrutura moderna. Enquanto nações ricas travam debates sobre racionamento e matriz suja, o Brasil oferece energia limpa, abundante e — detalhe crucial — barata. Barino foi direto: “O Brasil tem a energia, que é o mais complexo de pegar em várias localidades”.
Esse ativo físico é a moeda de entrada para uma onda de capital estimada entre US$ 5 trilhões e US$ 8 trilhões nos próximos quatro a cinco anos. O número contempla a cadeia longa: do concreto do data center ao software final que roda nele. “Isso reconfigura totalmente o mundo”, resumiu o executivo.
O hedge cambial embutido que ninguém comenta
Há um detalhe financeiro que torna o ticket brasileiro ainda mais atraente para o capital externo. Grande parte da receita dessa cadeia — contratos de nuvem, licenças, processamento — é dolarizada. Quem investe em infraestrutura local ganha, de forma nativa, uma proteção contra a volatilidade do real.
Não é hedge comprado no mercado futuro. É hedge estrutural, nascido do modelo de negócio. Para fundos globais, isso reduz a fricção na hora de aprovar o aporte.
Bolha ou fundação? A leitura da BlackRock
O mercado debate se a IA vive um ciclo de exagero especulativo. A tese da gestora descarta a bolha. O argumento: existe um “ramp-up” intenso de custos agora — chips, energia, talento —, mas a curva de retorno via produtividade já aponta no horizonte. O investimento não é aposta; é capex obrigatório para quem não quer ficar obsoleto.
O trilhão de razões para o PIB brasileiro
Um estudo do Reglab (Centro de Estratégia e Regulação) traduziu o abstrato em números nacionais. A projeção: quase R$ 1 trilhão adicionados à economia entre 2027 e 2030 (valor presente).
- Impacto no PIB: alta de 2,77% no período (média de 0,69 p.p. ao ano).
- Motor principal: 65% vêm de ganhos de produtividade da força de trabalho.
- Segundo motor: 35% da incorporação da tecnologia a máquinas e ativos.
Não é ficção científica. É contabilidade de ganho de eficiência projetada por um centro de regulação respeitado.
O gargalo que decide tudo: regulação
Energia tem. Capital global, ávido. Demanda, explosiva. O entrave único, segundo Barino, é o “arcabouço regulatório”. Não se trata apenas de lei de IA ou proteção de dados. Envolve licenciamento ambiental ágil para data centers, regras tributárias previsíveis para ativos de longa maturação e segurança jurídica para contratos em dólar de 15, 20 anos.
Sem isso, o capital migra para Chile, México ou Marrocos — países que já montaram “fast tracks” regulatórios para abocanhar essa fatia dos trilhões.
O que observar daqui para frente
O termômetro não está no noticiário político diário, mas em três sinais concretos: (1) a velocidade do marco legal de IA no Congresso; (2) a publicação de decretos que simplifiquem licenciamento de subestações e linhas de transmissão dedicadas; (3) o anúncio de grandes hyperscalers (AWS, Azure, Google Cloud) de novas regiões no Brasil além de São Paulo.
Quem monitora esses vetores antecipa onde o capital vai pousar — e qual fatia do trilhão fica no país.
