A taxa de pobreza na Argentina saltou para 32,3% no primeiro semestre de 2026, o primeiro avanço desde que Javier Milei conseguiu domar a inflação. O dado, divulgado pelo Indec nesta quinta-feira (24), acende um alerta vermelho no Palácio Rosada a pouco mais de um ano da disputa presidencial.
O aumento de 4,1 pontos percentuais em seis meses arrasta consigo uma pergunta incômoda: o modelo de choque liberal consegue sustentar apoio popular quando o custo de vida para de cair, mas o bolso ainda não enche?
O retrato numérico da reversão
Os números oficiais mostram uma deterioração ampla. A extrema pobreza subiu de 6,3% para 7,5%, enquanto 44,5% das crianças até 14 anos vivem em lares pobres — 10,8% em extrema pobreza. O Indec define a linha da pobreza em uma cesta básica de US$ 340 mensais; a extrema, apenas alimentação, em US$ 150.
- 32,3% da população em pobreza (H1 2026)
- 7,5% em extrema pobreza
- 44,5% das crianças pobres
- 400–450 mil pessoas caindo na pobreza por trimestre (estimativa UCA)
O “ganho fácil” acabou, dizem analistas
A queda brusca da inflação — que bateu 1,7% em agosto, menor nível em 14 meses — havia puxado a pobreza de 52,9% (H1 2024) para 28,2% (H2 2025). Agora, o movimento inverte. Para Nicholas Watson, da Teneo, “a parte mais fácil da melhora já chegou ao fim”. A UCA projeta 35% até dezembro.
O diagnóstico converge: sem geração robusta de empregos formais e recuperação real dos salários, a desinflação sozinha não sustenta a inclusão. O desemprego subiu a 7,9% no segundo trimestre, maior patamar desde 2021, e cerca de 30 mil empresas fecharam desde a posse.
Precariedade, não só desemprego
Eduardo Donza, do Observatório da Dívida Social da UCA, aponta o dedo para a informalidade. “Quando as famílias passam privações, inventam uma ocupação: catar recicláveis, vender na rua, cozinhar na estação”, explica. A abertura comercial acelerada e a perda de poder de compra atingiram em cheio indústria e varejo, setores intensivos em mão de obra.
Nas periferias de Buenos Aires, clubes de troca voltam a proliferar. Ana Barreto, professora que fundou um em agosto, relata fila por óleo, açúcar, farinha e macarrão — pagos com roupas e utensílios usados. A cena remete às crises de 2001.
Base eleitoral racha
Milei chegou ao poder com forte apoio de baixa renda, cansada da inflação crônica. A AtlasIntel de setembro mostra o estrago: entre quem ganha até US$ 650/mês, a desaprovação saltou de 57% para quase 70% em um ano; a aprovação caiu de 37% para abaixo de 30%. No agregado nacional, 58% desaprovam contra 38,1% que aprovam.
O comerciante Gustavo Pérez resume o sentimento: “Quatro anos atrás eu vendia dez carrinhos de mão por dia; hoje vendo um. Votei nele esperando melhora, me decepcionei.”
O dilema do ano eleitoral
O governo mantém o discurso: nada de afrouxar política monetária ou reativar subsídios para ganhar votos. “O presidente não vai se desviar nem um milímetro”, afirmou um porta-voz à Reuters. A aposta é que o superávit fiscal e a credibilidade externa criem as condições para crescimento sustentável.
Mas o calendário aperta. Em 2027, Milei tentará a reeleição com uma pobreza 4 pontos acima do piso recente, inflação baixa, porém salários reais estagnados e uma base popular que sente no dia a dia o peso do ajuste.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o desfecho: (1) a velocidade de criação de empregos formais nos próximos trimestres; (2) a trajetória dos salários reais frente à inflação residual; (3) a disposição do governo em manter a ortodoxia fiscal caso a aprovação derreta ainda mais. Para investidores e empresários, o sinal é claro: a estabilidade macroeconômica está posta, mas a sustentabilidade social do modelo entra agora na sua prova mais dura.
