Mais de 100 economistas e 60 organizações da sociedade civil acabam de lançar um manifesto que coloca o dedo na ferida: o crescimento do PIB não está chegando na mesa do brasileiro comum. A iniciativa “Vida em Conta” nasce para forçar o debate público a sair das planilhas fiscais e entrar na realidade concreta de quem acorda cedo, pega ônibus lotado e vê o dinheiro acabar antes do fim do mês.
O movimento, articulado pela Plataforma Cipó e pela organização Transforma, reconhece os avanços desde 2023 — queda do desemprego, controle da inflação, retomada de programas sociais e proteção ambiental. Mas faz um alerta direto: sem mudança de rota, esses ganhos podem evaporar.
O risco que ninguém fala alto o suficiente
O documento aponta para uma combinação perigosa: restrições permanentes ao investimento público, enfraquecimento de serviços essenciais e desonerações tributárias sem contrapartidas claras de desenvolvimento. Em resumo: o Estado para de investir, o cidadão paga a conta e a desigualdade se aprofunda.
“Há o risco de retorno a uma agenda que comprometa a proteção social e ambiental, prejudicando o próprio crescimento econômico”, afirmam as entidades signatárias. A frase soa como aviso de quem já viu esse filme antes.
Por que o brasileiro não sente a melhora nos indicadores
Apesar dos números positivos no agregado, parte significativa da população continua enfrentando dificuldades concretas. O custo de vida segue alto, o tempo para vida digna é escasso e a qualidade dos empregos gerados não acompanha a retórica oficial.
Segundo Maiara Folly, diretora-executiva da Plataforma Cipó:
“O crescimento econômico é fundamental, mas também importa como seus benefícios são distribuídos. Uma economia bem-sucedida é aquela que reduz desigualdades e transforma as capacidades e riquezas do país em avanços tecnológicos, empregos de qualidade e melhores condições de vida.”
As cinco frentes que o movimento coloca na mesa
A iniciativa não fica só no diagnóstico. Propõe diretrizes concretas para reorientar o planejamento público:
- Redução das desigualdades — renda, riqueza, gênero, raça e território no centro do planejamento
- Redução do custo de vida — moradia, alimentação, transporte e energia acessíveis
- Ampliação do tempo e condições para vida digna — jornada de trabalho, cuidado, lazer e participação social
- Fortalecimento da soberania tecnológica — inovação a serviço do desenvolvimento nacional
- Aceleração da diversificação produtiva — geração de empregos de qualidade em setores estratégicos
O que está em jogo no cenário global
Marco Antonio Rocha, diretor-executivo do Transforma, amplia a lente: o Brasil não pode ficar refém de discussões fiscais de curto prazo enquanto o mundo muda em velocidade exponencial. Mudanças climáticas, revolução tecnológica e transformação nos processos de trabalho exigem uma agenda de transformação social à altura.
“Não podemos ficar presos apenas às discussões fiscais de curto prazo. Precisamos avançar em uma agenda que nos livre dos retrocessos e garanta oportunidades econômicas e direitos sociais”, afirma Rocha.
O que observar daqui para frente
A iniciativa chega em ano eleitoral, o que dá peso político ao manifesto. O desafio será traduzir as diretrizes em propostas concretas de governo, orçamento e legislação. Para o empresário e o investidor, o recado é claro: a estabilidade macroeconômica sozinha não sustenta demanda interna robusta nem ambiente de negócios previsível se a base social estiver fraturada.
Fique atento à tramitação de propostas que mexam no teto de gastos, na regra de ouro ou na tributação sobre patrimônio e renda alta. São nesses debates técnicos que a “economia da vida real” será definida — ou ignorada — nos próximos ciclos.
