Justiça

PCC usava fintechs para lavar bilhões: operação expõe esquema no setor de combustíveis

Operação Carbono Oculto: esquema de lavagem de dinheiro do PCC via fintechs no setor de combustíveis
Investigação revela uso de fintechs pelo PCC para lavar R$ 11,6 bilhões no setor de combustíveis.

O Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal deflagraram nova fase da Operação Carbono Oculto e revelaram um detalhe que muda a compreensão sobre a sofisticação financeira do PCC: a facção utilizava fintechs como peça central para lavar dinheiro e ocultar patrimônio no setor de combustíveis. A investigação aponta para uma engenharia societária desenhada para comprar uma das maiores distribuidoras do país sem deixar digitais. O que chama atenção não é apenas o volume — R$ 11,6 bilhões em movimentação suspeita — mas a arquitetura tecnológica por trás da lavagem.

Como as fintechs entraram no esquema

Segundo os autos, a organização criminosa não usava apenas contas de passagem ou laranjas tradicionais. A estrutura montada envolvia fintechs e fundos de investimento que funcionavam como camadas de ocultação da titularidade real dos ativos. Um dos investigados, titular de fintechs e outras empresas, teria colocado à disposição da facção toda a infraestrutura societária e financeira do seu grupo empresarial.

Na prática, isso significa que a tecnologia financeira — vendida como inovação e agilidade — serviu de túnel para movimentar recursos da organização e mascarar a identidade dos donos de usinas sucroalcooleiras e da distribuidora alvo. A facilidade de abertura de contas, a velocidade nas transferências e a menor exigência de compliance em determinadas estruturas fintech teriam sido exploradas sistematicamente.

O alvo: a distribuidora Terrana e o dinheiro das usinas

A investigação identificou dois líderes do PCC no setor de combustíveis: Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamed Hussein Murad, o “Primo”. Ambos teriam arquitetado a aquisição da distribuidora Terrana, descrita como uma das maiores do país. Para financiar a compra, usaram uma usina sucroalcooleira já sob controle da facção.

Os números impressionam:

  • R$ 370 milhões em créditos vinculados à usina, usados para bancar a aquisição
  • R$ 100 milhões aportados diretamente pela organização criminosa na usina
  • O aporte contou com fiadores institucionais bancários e foi direcionado a um fundo de investimento operado em conjunto com as fintechs

Essa cadeia — usina → fundo → fintechs → distribuidora — foi desenhada para dificultar o rastreamento do dinheiro e separar a facção da propriedade formal dos ativos.

Nomes conhecidos do mercado financeiro entre os alvos

A operação cumpriu mandados em 29 endereços ligados a 13 pessoas físicas e 24 pessoas jurídicas, espalhados por sete estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo. Dois nomes chamaram a atenção do mercado:

  • Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-vinculado ao Banco Genial — a instituição informou que ele foi destituído dos quadros ainda este ano
  • Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos — sua defesa optou por não se manifestar

A presença de profissionais com trânsito no mercado financeiro tradicional reforça a tese de que o esquema não operava nas sombras amadoras, mas valia-se de expertise e redes legítimas para dar aparência de legalidade às operações.

Por que isso muda o jogo para compliance e reguladores

O caso expõe uma vulnerabilidade que reguladores vêm debatendo: a velocidade de onboarding e a menor profundidade de due diligence em certas fintechs podem criar brechas exploradas por organizações sofisticadas. Não se trata de culpar a tecnologia — mas de reconhecer que, sem controles proporcionais ao risco, a inovação financeira também serve a quem quer ocultar origem de recursos.

O Ministério Público e a Receita Federal sinalizam que a investigação continua. O foco agora recai sobre como os fiadores bancários avaliaram o aporte de R$ 100 milhões e se houve falha nos controles de prevenção à lavagem de dinheiro (PLD) nas instituições envolvidas na cadeia.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem atenção nos próximos meses: o desdobramento das responsabilidades dos fiadores bancários no aporte à usina; eventuais sanções regulatórias às fintechs usadas na estrutura; e a capacidade do sistema financeiro de detectar padrões semelhantes — onde fundos de investimento e fintechs funcionam em combinação para mascarar beneficiários finais. Para quem atua em compliance, risco ou investimentos no setor de combustíveis, o caso Carbono Oculto virou estudo de caso obrigatório: a lavagem de dinheiro deixou de ser artesanal e passou a escalar com tecnologia.