O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, admitiu publicamente que a oferta de crédito no Brasil atingiu um patamar “predatório”, com taxas que impedem a saída do endividamento. A declaração ocorreu nesta quinta-feira (24), durante a apresentação do Relatório de Política Monetária, e aponta para mudanças regulatórias imediatas.
O dado mais alarmante não é novo, mas a leitura da autoridade monetária mudou: 65% das operações de cartão de crédito estão inadimplentes. Metade dos cerca de 100 milhões de devedores paga juros próximos a 15% ao mês.
Por que o BC classifica como “problema de design”
Para Galípolo, um produto financeiro com dois terços de calote não sofre apenas com a conjuntura econômica — ele está estruturalmente falho. A avaliação é de que a concessão ocorre sem análise real da capacidade de pagamento, empurrando o tomador para um ciclo de juros compostos quase impossível de romper.
O diagnóstico afasta a culpa exclusiva do ciclo de alta da Selic. Segundo o chefe do BC, as medidas em estudo visam linhas de alto custo e sem garantia, independentes do momento da taxa básica de juros.
O impacto direto no bolso das famílias
Os números do próprio relatório mostram o tamanho da armadilha. O endividamento das famílias — dívida total sobre a renda disponível em 12 meses — bateu 49,9% em janeiro, recorde da série histórica. Já o comprometimento de renda — a fatia do salário mensal que vai para pagar parcelas — saltou para 28,9% em junho, também o maior nível já registrado.
- Endividamento total: 49,9% (recorde em jan/2024)
- Comprometimento de renda: 28,9% (recorde em jun/2024)
- Inadimplência no rotativo: 65%
- Juros médios do rotativo: ~15% ao mês
A combinação de inclusão bancária, tecnologia e mercado de trabalho aquecido expandiu o acesso ao crédito nos últimos anos. Mais recentemente, o encarecimento do dinheiro pelo aperto monetário e a corrida por crédito de emergência — tipicamente mais caro — empurraram o comprometimento para o teto histórico.
O que vem por aí: limites e transparência
O BC prepara um pacote de normas para regular a oferta digital de crédito. A ideia é coibir a abordagem agressiva — ligações insistentes, mensagens em apps, ofertas pré-aprovadas sem solicitação — e forçar a clareza sobre custos totais e alternativas mais baratas.
Galípolo foi direto: “Toda vez que entende que existe oferta predatória é para ser limitada mesmo”. A regra valerá para produtos onde o consumidor poderia acessar uma linha mais adequada e barata, mas é direcionado para a opção cara por falta de informação ou assédio comercial.
A mudança nas regras de capital dos bancos
Além da conduta, o lado prudencial deve mexer no bolso das instituições. O mercado já precifica a elevação do FPR (Fator de Ponderação de Risco) para cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia.
Na prática, isso exige que os bancos alocem mais capital próprio para sustentar essas operações. O efeito esperado é duplo: encarecer o funding para o risco alto — freando a oferta indiscriminada — e proteger o sistema de uma crise de crédito sistêmica.
O que observar nas próximas semanas
Duas frentes correm em paralelo. A comportamental, com regras de transparência e vedação a práticas abusivas de venda, deve sair primeiro via resoluções do CMN e do BC. A estrutural, com a mudança de ponderação de risco (FPR), depende de consulta pública e implementação gradual, mas já afeta a precificação de novos contratos.
Para o empresário e o investidor, o sinal é claro: o modelo de crescer carteira de crédito de alto risco “a qualquer custo” entrou na mira do regulador. Quem depende de funding barato para emprestar caro no varejo não garantido precisa rever a estratégia agora — antes que a norma torne o negócio inviável.
