O candidato à Presidência Renan Santos (Missão) desembarcou em Uberaba (MG) nesta sexta-feira (25) com um recado direto: quem prometer manter a Previdência como está, mente. A declaração, dada durante visita ao Mercado Municipal, expõe o eixo central de sua plataforma — reformas paramétricas duras, expansão de concessões rodoviárias e uma reestruturação radical no SUS e no ensino superior público.
A conta que ninguém quer pagar
Santos foi taxativo: “o candidato que falar que não vai reformar a Previdência estará mentindo”. A proposta foca em uma reforma paramétrica — ajustes em alíquotas, idades e tempo de contribuição — mirada prioritariamente em servidores federais, militares e magistratura.
O argumento é aritmético: o déficit previdenciário do setor público federal supera R$ 300 bilhões ao ano. Sem mexer nas regras atuais, a conta recai sobre contribuintes da iniciativa privada ou gera pressão inflacionária via emissão de dívida.
Rodovias: o modelo que “funciona”, com ressalvas
No mesmo palanque, o candidato defendeu a ampliação das concessões rodoviárias. “É o melhor modelo que tem”, afirmou, ao pregar a combinação de capital público e privado. Hoje, cerca de 65% dos investimentos em infraestrutura de transporte no País já vêm da iniciativa privada, segundo dados do PPI (Programa de Parcerias de Investimentos).
A condição imposta por Santos: marcos regulatórios claros para evitar “malandragens” — leia-se aditivos contratuais não previstos, reequilíbrios econômico-financeiros abusivos e baixa fiscalização de metas de conservação.
- Concessões ativas: mais de 12 mil km de rodovias federais concedidas.
- Investimento privado estimado (2023-2027): R$ 120 bi em novos contratos.
- Ponto de atenção: tarifas de pedágio e cláusulas de reajuste automático.
SUS: prontuário único e fim da “fila de chegada”
A proposta mais tangível para o dia a dia do eleitor está na saúde. Santos quer implantar um prontuário eletrônico único, acessível pelo paciente via internet ou aplicativo, permitindo acompanhar exames, consultas e tratamentos em tempo real.
A mudança viabilizaria a triagem por gravidade clínica, substituindo a ordem cronológica pura. Doenças incapacitantes e casos oncológicos, por exemplo, ganhariam prioridade automática no agendamento.
Especialistas em gestão hospitalar apontam que a integração de dados reduz em até 30% a duplicidade de exames — economia direta para o sistema e ganho de tempo para o usuário.
Universidades: quem paga, escolhe
O ponto mais polêmico da agenda foi a defesa do fim da autonomia universitária na definição de currículos e prioridades de cursos. “Se o Brasil está pagando a conta, nós temos que escolher o que vai ser ensinado”, sentenciou.
Na prática, a proposta transfere ao MEC o poder de ditar quais graduações recebem vagas e recursos, alinhando a oferta de formação às demandas do mercado de trabalho e à estratégia nacional de desenvolvimento — engenharias, saúde, tecnologia e áreas de defesa.
Críticos alertam para o risco de interferência política na pesquisa básica e nas humanidades, cujos retornos não são imediatos nem mensuráveis por indicadores de empregabilidade.
O que observar daqui para frente
A fala em Uberaba funciona como termômetro: reformas paramétricas na Previdência, concessões com regulação rígida, digitalização do SUS com triagem por risco e direcionamento estatal do ensino superior. São propostas que exigem maioria qualificada no Congresso e enfrentam resistências corporativas organizadas.
Para o empresariado e investidores, os sinais são de abertura ao capital privado em infraestrutura e busca por eficiência fiscal — mas o diabo mora nos detalhes regulatórios e na capacidade de execução. Acompanhe a tramitação de PECs previdenciárias, os editais de novas concessões rodoviárias e o desenho do prontuário único no Ministério da Saúde. São esses os termômetros reais de viabilidade.
