Tecnologia

O segredo do asfalto verde: Petrobras usa resíduo de milho nas estradas

Asfalto verde sustentável produzido na refinaria Revap da Petrobras com óleo técnico de milho da Inpasa
Ligante asfáltico inovador substitui derivado de petróleo por resíduo de etanol de milho

A Petrobras começou a transformar resíduo da produção de etanol de milho em asfalto na refinaria Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos (SP). A inovação substitui parte do derivado de petróleo por óleo técnico de milho, comprado da biorrefinaria Inpasa. O resultado é um ligante asfáltico sustentável que já está rodando em rodovias paulistas.

Mas a novidade vai muito além de uma simples troca de insumo. O volume produzido desde junho já supera 95 mil toneladas — o suficiente para pavimentar a ida e volta entre Rio de Janeiro e São Paulo. O que isso sinaliza para o custo das obras públicas e para a meta de descarbonização da estatal?

Como funciona a tecnologia do milho no asfalto

O segredo está no óleo técnico de milho, subproduto extraído durante o processamento do grão para etanol. Antes destinado a poucos usos industriais, ele agora entra na fórmula do CAP Pro R, linha de pavimentos com conteúdo renovável da petroleira.

A grande sacada técnica: o produto não exige adaptação nas usinas de asfalto nem nas equipes de pavimentação. A aplicação segue o padrão convencional, mantendo a resistência e a durabilidade esperadas para rodovias de alto tráfego.

Como o material não é queimado, o carbono biogênico permanece fixado na pista durante toda a vida útil do pavimento. Na prática, a estrada vira um “sumidouro de carbono” permanente.

Números que impressionam: 95 mil toneladas em meses

A escala da operação chama a atenção pela velocidade. Desde o início da produção, em junho, a Revap entregou volume equivalente a:

  • 95.000 toneladas de asfalto com conteúdo renovável;
  • Pavimentação teórica de 870 km de pista dupla (ida e volta Rio-SP);
  • Participação de 16,6% no total de asfaltos produzidos pela Petrobras até agosto de 2026.

Esse percentual revela que a estatal não tratou o projeto como piloto. A fatia de dois dígitos indica integração real à rotina de refino, e não apenas ação de marketing verde.

Além da pista: onde mais o óleo de milho aparece

O insumo da Inpasa tem rota diversificada dentro da estratégia de baixo carbono da petroleira. O mesmo óleo técnico que vai para o asfalto também alimenta duas frentes energéticas:

  • SAF (Combustível Sustentável de Aviação): insumo para reduzir emissões no setor aéreo;
  • Diesel R: diesel com parcela vegetal, já comercializado para frotas pesadas.

Essa polivalência fortalece a viabilidade econômica da biorrefinaria parceira e garante demanda constante para o subproduto do milho, evitando ociosidade sazonal.

Carbono travado no chão: a vantagem climática

Diretoria da Petrobras e da Inpasa convergem no diagnóstico: a fixação do carbono no pavimento é um diferencial frente aos biocombustíveis. No SAF ou no diesel, o carbono retorna à atmosfera na queima. No asfalto, ele fica preso por décadas.

Angélica Laureano, diretora de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, resume a estratégia: ampliar o leque de matérias-primas renováveis nas refinarias para diversificar o portfólio com menor intensidade de carbono. Rafael Verruck, diretor de Trading da Inpasa, classifica o insumo como “estratégico para a descarbonização”.

O que observar daqui para frente

A expansão do CAP Pro R para outras refinarias dependerá da logística de suprimento do óleo de milho — hoje concentrado no Centro-Oeste, onde a Inpasa opera. O custo do frete até o litoral paulista ditará a competitividade frente ao asfalto 100% fóssil.

Outro ponto de atenção: a capacidade de a Petrobras replicar a tecnologia com outros resíduos agrícolas, como óleo de soja ou gordura animal, já testados em diesel e SAF. Se a curva de aprendizado da Revap se confirmar, o asfalto verde pode virar padrão em editais de infraestrutura federal nos próximos anos.

Para o empresário do setor de pavimentação ou o gestor público, o recado é claro: a especificação técnica já existe, o produto tem rastreabilidade e a escala industrial está dada. A variável agora é preço e disponibilidade regional.