Economia

R$ 30 bi travados no RS: o segredo que trava a maior celulose do Estado

Fábrica de celulose CMPC em Guaíba RS com instalações industriais e chaminés
Complexo industrial da CMPC em Guaíba, onde expansão de R$ 30 bi está paralisada por burocracia.

O diretor-geral de celulose da CMPC, Antonio Lacerda, expôs um paradoxo brasileiro em palestra na CIC Caxias: o país tem o vento a favor para liderar a transição energética, mas a burocracia funciona como um freio de mão puxado em plena subida. O executivo mostrou como a alta do petróleo — turbinada por conflitos globais — abre janela histórica para fontes renováveis, enquanto o próprio projeto de expansão da empresa em Guaíba acumula anos de paralisação.

A fala foi direta: há capital disponível, tecnologia madura e demanda mundial por celulose de base florestal sustentável. O que falta, segundo Lacerda, é previsibilidade. O investimento bilionário previsto para a nova fábrica no Rio Grande do Sul segue travado por uma decisão monocrática do Ministério Público Federal, apesar de vitórias da companhia em duas instâncias da Justiça Federal.

O efeito imediato no bolso do investidor

Para o empresariado gaúcho, o recado tem tradução financeira direta. Cada mês de atraso no licenciamento representa:

  • Perda de competitividade frente a concorrentes sul-americanos com regras mais ágeis
  • Fuga de capital para projetos em países com arcabouço regulatório estável
  • Postergação de milhares de empregos diretos e indiretos na cadeia florestal e industrial

Lacerda foi enfático ao dizer que o excesso de burocracia não se resolve sozinho. Segundo ele, é necessária uma mobilização ampla — envolvendo setor produtivo, sociedade civil e poder público — para que o Brasil não perca o bonde da bioeconomia global.

O nó jurídico que paralisa Guaíba

O projeto de expansão da unidade de Guaíba esbarra em uma ação civil pública do MPF. O procurador exige adequações no estudo de impacto e a realização de consulta prévia, livre e informada a comunidades de pescadores, indígenas e quilombolas de todo o estado — não apenas do entorno da fábrica.

A empresa venceu em primeira instância e no TRF-4 o direito de não realizar essa consulta ampla, argumentando que o licenciamento já contemplou as audiências públicas exigidas. Ainda assim, uma decisão monocrática mantém as obras suspensas. A expectativa interna é de que o imbróculo seja superado até o fim do ano, com início das obras projetado apenas para 2029.

Energia renovável: a conta que fecha (se deixarem)

O pano de fundo da palestra vai além da celulose. Lacerda traçou um cenário onde o Brasil poderia ser fornecedor global de:

  • Biocombustíveis avançados (etanol de segunda geração, bioquerosene)
  • Pellets florestais para substituição de carvão em termelétricas europeias
  • Celulose para embalagens que substituem plástico de uso único

Todos esses mercados crescem a dois dígitos ao ano. O entrave, repetiu o diretor, não é tecnológico nem de mercado — é institucional.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se a janela de oportunidade se mantém aberta ou se fecha nos próximos 18 meses: o desfecho do processo no MPF (com possível subida ao STJ), a tramitação de projetos de lei que visam simplificar o licenciamento ambiental no Congresso, e a capacidade do setor privado de articular uma narrativa única sobre segurança jurídica. Quem acompanha o setor sabe: o capital tem pressa, e a paciência dos conselhos de administração não é infinita.