A Diageo, dona da Johnnie Walker e da Smirnoff, acaba de colocar no mercado brasileiro um selo de autenticação que usa inteligência artificial para verificar a procedência de cada garrafa. A tecnologia chega depois que uma onda de intoxicações por metanol em bebidas adulteradas matou 25 pessoas apenas em 2025.
O sistema, batizado de Selo Drink Seguro, funciona com uma impressão digital única por unidade — o chamado fingerprint. Basta apontar a câmera do celular para o rótulo e a IA valida a autenticidade em segundos. Mas a grande pergunta permanece: isso basta para fechar as portas do mercado ilegal?
Como a verificação funciona na prática
Cada selo carrega uma combinação criptográfica entre as mais de 27 trilhões possíveis, desenvolvida pela Securetrace — a mesma empresa por trás dos elementos de segurança da cédula de R$ 100 e do passaporte brasileiro. Ao escanear, o consumidor vê a mensagem “verificado” ou é direcionado a um formulário para denunciar suspeitas.
A cobertura inicial abrange 49 itens do portfólio da companhia, incluindo uísques, gins, vodcas, tequilas, licores e rums. Marcas como Ypióca e produtos de consumo imediato (caso da Smirnoff Ice) ficam de fora nesta primeira fase. A meta é ter todas as garrafas elegíveis identificadas até dezembro.
- Tecnologia: fingerprint digital + IA de verificação
- Desenvolvedora: Securetrace (nota de R$ 100, passaporte)
- Combinações possíveis: 27 trilhões+
- Cobertura alvo: 49 SKUs até fim de 2024
O tamanho do problema que motivou a medida
Dados da Euromonitor encomendados pela ABBD mostram que o mercado ilegal responde por 4,7% de todo o volume de destilados vendidos no Brasil. Em números absolutos, a conta é alta: segundo o Ministério da Saúde, 73 pessoas foram intoxicadas por metanol em 2025, com 25 óbitos confirmados. Neste ano, até agosto, já são 17 casos confirmados e outros 23 sob investigação.
“A questão do metanol foi uma crise sanitária vinda de uma prática criminosa”, afirma Paula Lindenberg, CEO da Diageo Brasil. “Jogou luz na consequência grave que uma falsificação traz para a saúde do consumidor.”
Por que a tecnologia sozinha não resolve
A própria executiva admite: o selo é um recurso importante, mas insuficiente sem legislação mais dura e atuação coordenada do poder público. A falsificação de bebidas ainda não é tipificada com penas proporcionais ao risco que gera — e a impunidade mantém o negócio atrativo para criminosos.
Questionada se a solução seria aberta a concorrentes como Pernod Ricard, Bacardi ou Beam Suntory (todas integrantes da ABBD), Lindenberg foi direta: cada empresa deve escolher a tecnologia que melhor se adapta ao seu portfólio. Não há intenção de impor um padrão único.
O que observar nos próximos meses
A adoção em larga escala pelo varejo e a velocidade de leitura pelo consumidor comum serão os primeiros termômetros de sucesso. Outro ponto crítico: a disposição do Congresso para endurecer as penas contra falsificadores de bebidas, projeto que ganhou fôlego após a crise do metanol. Se a lei não acompanhar a tecnologia, o selo vira apenas mais um obstáculo contornável — e o mercado ilegal segue operando.
