A Itália projeta um salto de 14 bilhões de euros (R$ 83,4 bilhões) nas vendas ao Mercosul na próxima década, mas o próprio governo italiano admite: a conta pode ficar curta. A redução de entraves burocráticos e barreiras não tarifárias, prevista no acordo de livre comércio com a União Europeia, tende a destravar um fluxo comercial bem mais intenso do que as projeções atuais indicam.
Quem faz o alerta é Matteo Zoppas, presidente da Agência ICE, órgão responsável pela promoção comercial italiana no exterior. Ele comanda neste mês uma missão de peso: 200 representantes, sendo 90 empresários de cinco setores estratégicos, percorrendo quatro estados brasileiros em busca de projetos concretos.
A meta ambiciosa por trás da comitiva
O movimento não é apenas diplomático. A Itália fixou um alvo de 700 bilhões de euros em exportações anuais globais — hoje, o bloco do Mercosul responde por apenas 7,5 bilhões de euros (R$ 44,6 bilhões) desse total. A fatia brasileira, maior economia do bloco, é a peça-chave para ampliar essa participação.
A delegação reúne nomes de peso da indústria italiana. Antonio Tajani, vice-premiê e ministro das Relações Exteriores, viaja ao lado de Emanuele Orsini, presidente da Confindustria, a confederação geral da indústria do país europeu. Orsini traz na bagagem 38 empresas associadas.
Cinco setores na mira dos investimentos
O roteiro setorial revela onde a Itália vê vantagem competitiva real no mercado brasileiro:
- Transição energética e infraestrutura sustentável — hidrogênio verde, solar, eólica
- Máquinas e equipamentos industriais — automação, manufatura avançada
- Indústria farmacêutica — P&D, produção local, cadeia de suprimentos
- Tecnologias digitais — IA, cibersegurança, indústria 4.0
- Agroindústria — maquinário, processamento, logística de grãos
Não por acaso, são áreas onde o Brasil tem demanda crescente e lacunas tecnológicas que empresas italianas já dominam.
Roteiro desenhado para fechar negócios
A agenda passa por São Paulo, com reunião na Fiesp — principal federação industrial do país —, segue para Brasília, onde o diálogo é institucional, e desce ao Nordeste: Bahia e Ceará. A escolha dos dois estados nordestinos sinaliza o interesse italiano em polos de energia renovável, complexos portuários e hubs de hidrogênio verde que vêm se desenhando na região.
Mas o efeito mais relevante aparece quando se olha para o que não está no papel: a eliminação de barreiras não tarifárias. Hoje, certificações técnicas, regras de origem complexas e procedimentos aduaneiros morosos travam mais comércio do que as próprias tarifas. O acordo UE-Mercosul ataca exatamente esses pontos.
O que observar daqui para frente
Se a estimativa de 14 bilhões de euros adicionais for confirmada — ou superada —, o Brasil se tornará destino prioritário para capital e tecnologia italiana na América Latina. Para o empresário brasileiro, a sinalização clara é: prepare a estrutura para receber parcerias industriais, transferência de tecnologia e cadeias de suprimento integradas. O movimento já começou. A velocidade dos próximos acordos setoriais dirá se o número de Zoppas era conservador ou realista.
