O umbu e a mangaba foram os frutos nativos mais extraídos do Rio Grande do Norte em 2025, mas a lenha continua ditando a economia do setor. A pesquisa PEVS, do IBGE, revela um cenário de contrastes: crescimento na coleta de alimentos e recuo na carnaúba. O que esses números sinalizam para quem investe no semiárido?
Ao todo, 1.750 toneladas de produtos alimentícios saíram da caatinga potiguar no ano passado, alta de 16,6% frente a 2024. O faturamento desse segmento superou R$ 4,15 milhões. Parece expressivo, mas representa uma fração do bolo total da extração vegetal no estado.
O protagonismo do umbu e o valor da mangaba
O umbu liderou em volume: 825 toneladas coletadas em 43 municípios, gerando R$ 1,19 milhão. São Miguel do Gostoso e Pedra Grande concentraram a maior parte da safra, somando 500 toneladas juntas. A logística pulverizada, porém, ainda é um gargalo para escalar a comercialização.
A mangaba ficou em segundo lugar na quantidade (605 t), mas venceu no valor agregado: R$ 2,06 milhões. A extração concentrou-se fortemente em Nísia Floresta, responsável por 530 toneladas sozinha. Essa geografia restrita abre espaço para estratégias de denominação de origem e certificação.
- Umbu: 825 t | R$ 1,19 mi | 43 municípios
- Mangaba: 605 t | R$ 2,06 mi | Foco em Nísia Floresta
- Castanha de caju: 107 t | R$ 440 mil
- Cajá: 22 t | R$ 71 mil
Lenha: o motor invisível de R$ 45,5 milhões
Se os frutos chamam atenção pela identidade regional, a lenha sustenta o caixa. O produto respondeu por 73,4% de todo o valor da extração vegetal no RN, totalizando R$ 45,5 milhões. Foram 1,11 milhão de metros cúbicos retirados em 130 municípios.
Três cidades dominaram a geração de receita madeireira: Alexandria (R$ 8,55 mi), Santa Cruz (R$ 6,5 mi) e Caraúbas (R$ 5,25 mi). Juntas, madeira em tora e carvão vegetal empurram a participação dos produtos de base florestal para 82,7% do faturamento total do extrativismo potiguar, que atingiu R$ 62 milhões.
Carnaúba em queda: alerta para a cadeia da cera
Nem tudo cresceu. A extração de carnaúba recuou quase 11% em volume, caindo de 428 para 381 toneladas. O valor de produção da cera (pó e bruta) encolheu 13,4%, fechando em R$ 6,59 milhões. A produção concentrou-se no formato pó (379 t) nos municípios de Upanema, Ipanguaçu e Assú.
O recuo contrasta com a demanda global por insumos naturais em cosméticos e farmacêuticos. A oscilação pode refletir ciclos de safra ou pressão sobre o manejo sustentável da palmeira, nativa e símbolo do estado.
Eucalipto: silvicultura ainda incipiente
No lado plantado, o eucalipto mostrou números tímidos. A lenha de floresta plantada somou 1.500 m³ (R$ 120 mil), focada em Pureza e Macaíba. Já a madeira em tora para outros fins atingiu 6.000 m³ em Pureza, rendendo R$ 2,4 milhões. A base florestal cultivada ainda engatinha frente ao extrativismo nativo.
O que observar nos próximos ciclos
O crescimento de dois dígitos na extração de alimentos nativos sinaliza mercado aquecido para a sociobiodiversidade, mas a dependência extrema da lenha expõe fragilidade climática e regulatória. Para investidores e gestores, o ponto de atenção é a verticalização: transformar o umbu e a mangaba em polpas, cosméticos ou ingredientes de alto valor antes de saírem do território. A queda da carnaúba exige monitoramento de manejo e preços internacionais. Já a silvicultura de eucalipto demanda escala e logística para deixar de ser coadjuvante.
