Economia

Cashback da reforma: Bolsa Família ganha “13º” oculto em 2027…

Família beneficiária do Bolsa Família recebe cartão com símbolo de cashback da reforma tributária
Reforma tributária garante devolução de tributos para 28 milhões de famílias do CadÚnico a partir de 2027.

O governo confirmou que 28 milhões de famílias do CadÚnico receberão devolução de tributos já no primeiro ano da nova regra. Para os 19 milhões de beneficiários do Bolsa Família, o valor médio anual gira em torno de R$ 350. Parece pouco, mas equivale a quase 4% a mais no orçamento doméstico.

A conta não é simbólica: o impacto fiscal beira os R$ 10 bilhões por ano, sem furar o teto do arcabouço. O segredo está na contabilidade — a restituição sai da arrecadação, não do Orçamento. Mas afinal, quem define quanto cada casa recebe?

O cálculo que ninguém explica direito

O valor final depende de duas variáveis ainda fluidas: a alíquota efetiva da CBS (o novo tributo federal) e o volume de compras registradas com CPF na nota. A Receita Federal promete um teto personalizado por família, cruzando renda declarada e notas fiscais.

Simulações independentes, baseadas no modelo gaúcho que inspirou a regra nacional, projetam cenários bem diferentes para 2027:

  • Piso: R$ 248/ano (família só com Bolsa Família, alíquota baixa).
  • Média oficial: R$ 350/ano (estimativa do governo corrigida pela inflação).
  • Teto teórico: R$ 983/ano (se a família formalizar 100% do consumo).

Note que o teto exige comportamento perfeito: pedir CPF em todas as compras. Na prática, a adesão rara vez passa de 60%.

Como o dinheiro chega na ponta

Diferente do Bolsa Família, o cashback não cai todo de uma vez. A estrutura de pagamento já está desenhada na lei regulamentar:

  • Itens essenciais (gás 13kg, luz, água, telecom): isenção direta na conta — desconto imediato.
  • Botijão de gás: devolução trimestral em conta.
  • Demais bens e serviços: 20% do imposto devolvido em 4 parcelas trimestrais, a partir de 25 de abril.

O depósito cai em conta no nome do responsável familiar. Quem vive em áreas sem comércio formal terá fórmula de compensação — detalhe que a Receita ainda vai regulamentar.

O salto de 2029 e a fatia dos estados

O cenário muda de figura quando o IBS (imposto estadual/municipal) entrar na roda, a partir de 2029. A projeção oficial indica que o valor dobre até 2033, chegando a superar R$ 700/ano na média.

Aqui entra a política: a devolução do IBS é limitada a 20% do tributo. Percentuais acima disso dependem de governador ou prefeito assinarem a adesão. A CBS, por sua vez, devolve 100% nos essenciais e 20% no resto — mas responde por só metade do bolo total no longo prazo.

O que o modelo gaúcho ensina

O “Devolve ICMS” do Rio Grande do Sul, piloto real desde 2022, paga R$ 100 fixos por trimestre mais variável. Resultado prático: 37% menos peso do ICMS na renda dos mais pobres e 90% do dinheiro gasto em alimentação, farmácia e higiene.

O programa atende 524 mil famílias lá. Escalar para 19 milhões nacionalmente exige tecnologia pesada e combate a fraude — como o uso do CPF do beneficiário por terceiros. A Receita promete algoritmos de renda compatível para travar isso.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem o tamanho real do benefício no bolso do seu cliente ou funcionário de baixa renda:

  • Definição da alíquota padrão da CBS (em debate, gira em torno de 18% no total dual).
  • Adesão de estados e municípios à devolução ampliada do IBS (acima dos 20% obrigatórios).
  • Capacidade da Receita de processar notas fiscais em tempo real para calcular o “personalizado”.

O próximo presidente da República terá a caneta para calibrar os limites de gasto elegíveis. Por enquanto, só um pré-candidato cita o programa explicitamente no plano de governo. Se a eficiência se provar, a tendência é trocar isenções setoriais por devolução direta — o que simplifica o sistema e alivia a regressividade brutal do consumo atual.