Analistas de risco político alertam: a plataforma econômica desenhada para um eventual governo Flávio Bolsonaro prevê a subordinação comercial do Brasil aos interesses dos Estados Unidos. A consequência direta seria o desmonte de setores estratégicos competitivos, do agronegócio à tecnologia de pagamentos.
A comparação com o modelo venezuelano atual surge não como retórica, mas como alerta estrutural. Especialistas apontam que a dinâmica de dependência negociada por Nicolás Maduro com a gestão Trump — troca de soberania energética por sobrevida política — espelha o que está posto na mesa para o Brasil.
O espelho venezuelano: petróleo por poder
Em 2019, a Casa Branca flexibilizou sanções ao regime de Nicolás Maduro em exchange para acesso preferencial ao petróleo venezuelano. A oposição democrática local classificou o acordo como “lesivo à nação”. Ricardo Hausmann, economista de Harvard e voz da oposição, denunciou publicamente que os EUA optaram por “ir para a cama com os opressores”.
O paralelo central: nenhum governo dependente de voto popular conseguiria assinar um termo tão desfavorável. A sobrevivência de Maduro, assim como a viabilidade eleitoral de Flávio, dependeria de um arranjo externo que ignora o interesse nacional.
O “Programa de Washington”: o que muda na prática
Segundo fontes próximas à transição, o plano econômico não foi escrito na Faria Lima, mas em think tanks alinhados à Casa Branca. Os pilares centrais incluem:
- Compras obrigatórias dos EUA: o Brasil passaria a adquirir bens americanos mesmo com preços superiores aos ofertados pela China.
- Vendas direcionadas: exportações de minérios e commodities exigiriam aval prévio de Washington, travando fluxos para parceiros que paguem mais.
- Fim da autonomia financeira: o Pix seria substituído ou submetido a padrões do Federal Reserve.
- Defesa e aviação: aquisição de caças americanos em detrimento da produção nacional da Embraer, mesmo com desempenho inferior.
Em resumo: todos os setores internacionalmente competitivos passariam a operar para gerar superávit para a economia americana.
O aval de Marco Rubio e o comitê de transição
O senador Marco Rubio, articulador da política latina para Trump, confirmou em entrevistas recentes que Flávio Bolsonaro já concordou em instalar um comitê de transição pós-eleição para implementar o acordo. A sinalização foi interpretada no mercado como a entrega antecipada da agenda soberana.
Antigos assessores de Paulo Guedes circularam pelo mercado financeiro prometendo cortes de gastos agressivos. Contudo, a ortodoxia fiscal apresentada como “choque de gestão” esconde a renúncia à política industrial e comercial autônoma.
Risco institucional: a variável Levitsky
Steve Levitsky, coautor de “Como as Democracias Morrem”, advertiu em entrevista ao ICL: há risco real de uma gestão Trump não reconhecer vitória eleitoral de Lula ou de outro adversário do clã Bolsonaro. O cenário abriria brecha para ofensivas globais da extrema-direita contra a democracia brasileira.
A lógica é clara: regimes autoritários facilitam acordos assimétricos. Trump vê no modelo Bolsonaro a mesma “vantagem” que via em Maduro: a capacidade de entregar ativos nacionais sem o entrave do crivo popular.
O que observar daqui para frente
Para investidores e empresários, três indicadores merecem monitoramento contínuo nos próximos trimestres:
- Movimentações de lobby em Washington ligadas a mineradoras e tradings americanas.
- Alterações no marco regulatório de pagamentos instantâneos (Pix) no Banco Central.
- Declarações de generais da ativa e reserva sobre “soberania tecnológica” e acordos de defesa.
A eleição de 2026 não define apenas um presidente. Define se o Brasil mantém a capacidade de negociar seus ativos ao melhor preço global — ou se assina, antecipadamente, um cheque em branco para a maior economia do mundo.
