O liberalismo sempre se gabou de ser uma “tenda grande”, capaz de abrigar tanto conservadores europeus quanto social-democratas nórdicos. Mas a concordância acaba nos princípios gerais — liberdades básicas, propriedade privada, Estado de direito. Na hora de definir o tamanho do Estado e o destino da riqueza, a briga é feia.
O novo livro de Daron Acemoglu, What Happened to Liberal Democracy?, expõe essa fratura com clareza cirúrgica. A tese central: o modelo funcionou enquanto a prosperidade era compartilhada. Em algum momento das últimas décadas, a engrenagem travou. Tecnologia, globalização e choques estruturais concentraram ganhos no topo, e a confiança nas instituições derreteu.
A aposta do “liberalismo da classe trabalhadora”
Acemoglu propõe um remédio batizado de “working class liberalism” — um rearranjo que desloque poder de barganha de volta para quem vive de salário. A receita passa por fortalecer sindicatos, revisar regras de concorrência e redistribuir os ganhos de produtividade antes que a revolta vire voto em extremistas.
Previsivelmente, a esquerda acadêmica aplaudiu. Thomas Piketty endossou. Já a The Economist, bastião do liberalismo clássico, atacou a ideia como intervenção perigosa. O diagnóstico é o mesmo; a receita, oposta.
O verdadeiro divisor de águas: a tecnologia
Por trás do debate econômico, esconde-se uma aposta existencial sobre o futuro. Dois cenários, mutuamente exclusivos, ditam as posições:
- Otimistas: IA e automação trarão salto de produtividade sem precedentes, criando abundância que tornará a redistribuição desnecessária.
- Pessimistas: A mesma tecnologia ampliará abismos, substituindo trabalho cognitivo e manual sem criar substitutos à altura — regulamento urgente ou o fascismo espera na esquina.
Não há dados históricos que decidam a disputa. Estamos no território da conjectura informada.
O agnosticismo como estratégia de sobrevivência
Schwartsman assume não saber qual cenário se materializa em 20 ou 30 anos. A honestidade intelectual, porém, não paralisa: para chegar no longo prazo, é preciso sobreviver ao curto. Crises climáticas, envelhecimento populacional, dívidas soberanas e polarização política não esperam o veredito sobre a IA.
O liberalismo que sair vivo dessa década não será o que acertou a previsão tecnológica, mas o que demonstrou capacidade de aliviar a pressão imediata sobre quem carrega o peso da transição.
O que observar daqui para frente
Fique atento a três indicadores nos próximos 18 meses: (1) se grandes economias avançam em tributação de super-ricos e plataformas digitais; (2) se sindicatos recuperam densidade em setores de tecnologia e logística; (3) se partidos de centro-direita e centro-esquerda conseguem costurar pactos de renda mínima ou requalificação massiva sem ruptura institucional. O liberalismo que não entregar respostas práticas a esses testes perderá a tenda — e o público — para alternativas que prometem atalhos, por mais perigosos que sejam.
