Quatorze candidatos às eleições de 2026 carregam, juntos, mais de R$ 100 milhões em autuações ambientais aplicadas pelo Ibama e pelo ICMBio na última década. O levantamento da ASCEMA Nacional revela nomes que disputam cadeiras no Congresso, governos estaduais e suplências — todos com débitos individuais acima de R$ 1 milhão. A pergunta que fica: isso pode impedi-los de concorrer?
A resposta curta é não. Mas a história não termina aí.
Multa administrativa não é condenação criminal — e isso muda tudo
Pela Lei da Ficha Limpa, só uma condenação criminal definitiva (trânsito em julgado) ou por órgão colegiado por crime ambiental gera inelegibilidade. Multas do Ibama são sanções administrativas ou pecuniárias. Sozinhas, não barram ninguém.
Porém, Cristiane Mazzetti, do Greenpeace Brasil, alerta: o eleitor deve tratar o histórico socioambiental como critério de voto. Sobretudo quando o candidato busca reeleição, integra bancadas que flexibilizaram a fiscalização ou pode se beneficiar do enfraquecimento dos órgãos de controle.
O perfil que se repete: homens, agronegócio, arco do desmatamento
Treze dos catorze são homens. A maioria é empresária ou ligada ao agronegócio, com atuação em municípios do Pará, Amazonas, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Acre e Mato Grosso do Sul. Sete concentram autuações no Pará — especialmente em Altamira e São Félix do Xingu, dentro ou nas bordas da APA Triunfo do Xingu, uma das áreas mais pressionadas da Amazônia.
Veja os maiores valores individuais:
- Daniel Messac (Mobiliza/GO): R$ 60,7 milhões em 4 autuações — a maior, de R$ 50 mi, por destruir 5 mil hectares com fogo na APA Triunfo do Xingu (2020). Exigibilidade suspensa na Justiça.
- Romero Jatobá (PSB/PE): R$ 17,5 milhões em 7 autos, todos de outubro de 2020 em Altamira. Já condenado por desmatamento ilegal para criação de gado.
- José Lopes Jr. (Republicanos/AC): R$ 8,2 milhões em 12 autuações (2018–2024) no sul do Amazonas. Declarou R$ 32,6 milhões em patrimônio, majoritariamente imóveis rurais.
- Ulisses Vieira (PL/MA): R$ 3,3 milhões por 650 hectares desmatados em Buriticupu (2024). Processo com exigibilidade suspensa.
- Maurício Buffon (PL/TO): R$ 3,1 milhões em 3 autos, incluindo atividade agropecuária sem licença em 595 ha no Mato Grosso (2017).
Quando a cobrança trava na Justiça, o candidato segue “livre”
Daniel Messac, Ulisses Vieira e Tobias Laurindo somam mais de R$ 54 milhões com exigibilidade suspensa por decisões judiciais. Na prática, enquanto o processo corre, o autuado mantém acesso a crédito, contratos públicos e exercício normal da atividade.
Wallace Lopes, da ASCEMA, explica: “Há discussão judicial em andamento. A cobrança administrativa foi suspensa. O autuado deixa de sofrer restrições até a conclusão definitiva”.
Não é só Amazônia: Pantanal e Cerrado também aparecem
Edson Giroto (PL/MS) foi multado em R$ 2 milhões por danificar 401 hectares de vegetação nativa no Pantanal mato-grossense (Corumbá, 2019). Já foi condenado por enriquecimento ilícito estimado em R$ 10 milhões.
Antonio Galvan (Avante/MT), candidato ao Senado, soma R$ 1,5 milhão — a maior parte por operar aeródromo potencialmente poluidor sem licença em Vera (MT), 2022.
O que o eleitor deve observar daqui para frente
O levantamento considerou 190 registros de autuações (Ibama e ICMBio) cruzados com CPFs de candidatos do TSE, recorte a partir de 2017. Autos cancelados ou anulados foram excluídos. Mas o dado bruto não conta a história inteira: muitos processos estão em recurso, aguardando homologação ou suspensos judicialmente.
Para o voto consciente em 2026, três pontos práticos:
- Verifique se o candidato tem autuações no DivulgaCand (TSE) e consulte o portal de autos do Ibama pelo CPF.
- Diferencie multa administrativa (não impede candidatura) de condenação criminal ambiental (impede, se transitada em julgado ou por colegiado).
- Acompanhe se o candidato integra frentes parlamentares que atuaram para enfraquecer licenciamento, fiscalização ou proteção de áreas indígenas e de conservação.
O histórico ambiental não é só “ficha suja” ou “ficha limpa”. É sinal de como aquele futuro parlamentar ou governador tende a votar quando o tema for floresta, agronegócio, crédito de carbono ou regularização fundiária. O bolso do contribuinte — e a floresta — cobram a conta depois.
