Quatorze pré-candidatos às eleições de 2026 carregam, juntos, um passivo ambiental superior a R$ 100 milhões em autuações do Ibama e do ICMBio. O levantamento da ASCEMA Nacional expõe um perfil recorrente: empresários do agronegócio atuantes no arco do desmatamento. A pergunta que fica é como isso pesará na urna e nos riscos de crédito para quem financia esse cenário.
O retrato do passivo: Amazônia concentra a fatia maior
Sete dos catorze nomes têm autuações concentradas no Pará, especialmente em Altamira e São Félix do Xingu, municípios que cortam a APA Triunfo do Xingu — uma das áreas mais pressionadas da Amazônia Legal. As infrações vão de destruição de vegetação nativa com uso de fogo a exploração de áreas embargadas sem licença.
O topo da lista pertence a Daniel Messac de Morais (Mobiliza/GO), com R$ 60,7 milhões em quatro autos. A maior multa, de R$ 50 milhões, refere-se à queima de mais de 5 mil hectares dentro da unidade de conservação em 2020. Outro destaque é Romero Jatobá Cavalcanti Neto (PSB/PE), vereador mais votado do Recife em 2024, com R$ 17,5 milhões em sete autuações aplicadas em um único dia, também em Altamira.
Multa administrativa não impede candidatura, mas acende alerta
Pela Lei da Ficha Limpa, uma multa ambiental isolada — por ser sanção administrativa — não torna ninguém inelegível. A inelegibilidade exige condenação criminal definitiva ou por órgão colegiado por crime ambiental. Ainda assim, especialistas alertam: o histórico socioambiental virou critério de due diligence para investidores e eleitores atentos à agenda ESG.
Cristiane Mazzetti, do Greenpeace Brasil, resume o risco político: candidatos com esse perfil costumam atuar em bancadas que fragilizam a fiscalização, criando um ciclo onde a impunidade administrativa fortalece o projeto de poder.
Perfil predominante e o “efeito suspensão”
A maioria é homem, empresário rural e disputa cargos legislativos ou executivos em estados da Amazônia Legal. Um detalhe técnico crucial: grande parte dos valores milionários tem a exigibilidade suspensa por decisão judicial.
- Messac, Ulisses Vieira (PL/MA) e Tobias Laurindo (DC/AP) somam mais de R$ 54 milhões em multas travadas na Justiça.
- Na prática, enquanto o recurso corre, o autuado mantém acesso a crédito rural, contratos públicos e licenças sem a restrição do Cadin ambiental.
- Para o analista Wallace Lopes (ASCEMA), isso posterga a consequência real, mas não extingue a dívida.
Além da Amazônia: Pantanal e Cerrado também aparecem
O passivo não é exclusivo da floresta. Edson Giroto (PL/MS) tem R$ 2 milhões por danos a 401 hectares de vegetação nativa no Pantanal de Corumbá. Antonio Galvan (Avante/MT), candidato ao Senado, responde por R$ 1,5 milhão por operar aeródromo potencialmente poluidor sem licença em Mato Grosso. Maurício Buffon (PL/TO) acumula R$ 3,1 milhões, incluindo atividade agropecuária sem licença em Feliz Natal (MT) e armazenamento irregular de agrotóxicos.
Os números por trás dos nomes (Recorte > R$ 1 mi)
| Candidato | Cargo/Partido/UF | Total Multas | Principal Infração |
|---|---|---|---|
| Daniel Messac de Morais | Dep. Estadual / Mobiliza / GO | R$ 60,7 mi | Destruição de 5 mil ha na APA Triunfo do Xingu (PA) |
| Romero Jatobá Cavalcanti Neto | Dep. Estadual / PSB / PE | R$ 17,5 mi | Desmatamento ilegal em Altamira (PA) |
| José Lopes Junior | Dep. Estadual / Republicanos / AC | R$ 8,2 mi | 12 autuações por flora/embargo no Sul do Amazonas |
| Ulisses Vieira Coutinho dos Santos | Dep. Estadual / PL / MA | R$ 3,3 mi | 650 ha destruídos em Buriticupu (MA) |
| Maurício Buffon | Dep. Federal / PL / TO | R$ 3,1 mi | Agropecuária sem licença + agrotóxicos irregulares |
| Edson Giroto | Dep. Federal / PL / MS | R$ 2,0 mi | Desmatamento no Pantanal (Corumbá/MS) |
| Antonio Galvan | Senador / Avante / MT | R$ 1,6 mi | Aeródromo sem licença ambiental em Vera (MT) |
| Deodalto José Ferreira | Dep. Estadual / PL / RJ | R$ 1,5 mi | Dano a 297 ha na Amazônia (Rondon do Pará/PA) |
| Tobias Laurindo | 1º Suplente / DC / AP | R$ 1,5 mi | Infrações à flora em Macapá (AP) – suspensas |
| José Alexandre Domingues Guimarães | Senador / MDB / TO | R$ 1,5 mi | Impedir regeneração em área embargada (TO) |
| Daniel Barbosa Santos | Governador / Podemos / PA | R$ 1,4 mi | Destruição de 279 ha em Tomé-Açu (PA) |
| Simão Peixoto Lima | Dep. Estadual / MDB / AM | R$ 1,3 mi | Queimadas e pecuária sem licença em Borba (AM) |
| Wanderley Dias Vieira | Dep. Estadual / PL / PA | R$ 1,0 mi | Exploração em Terra Indígena Apyterewa (PA) |
O que observar daqui para a frente
O cenário desenha dois movimentos paralelos. De um lado, a judicialização alonga a cobrança e mantém a “ficha limpa” formal dos candidatos. Do outro, a pressão por transparência climática e compliance socioambiental tende a endurecer — tanto no mercado de capitais (green taxonomy, restrição a crédito rural) quanto no eleitorado urbano.
Para o profissional de negócios, o sinal é claro: monitorar a tramitação das ações que suspendem essas multas. Se a Justiça derrubar as liminares, a exigibilidade imediata pode bloquear financiamentos, travar contratos públicos e alterar a viabilidade econômica das bases eleitorais desses candidatos. A eleição de 2026 será, também, um teste de quão caro sai o passivo ambiental na política brasileira.
