Tecnologia

Europa troca Big Tech por código aberto: a lição que o Brasil esqueceu

Mapa da Europa com ícones de código aberto substituindo logos de Big Tech como Microsoft e Google
Europa avança na soberania digital trocando software proprietário por alternativas abertas locais.

A França acaba de provar que soberania digital não é discurso — é planilha. O governo francês determinou que todos os ministérios apresentem, até novembro, um plano para eliminar a dependência de softwares privados estrangeiros em atividades básicas como videochamadas e edição de documentos.

A meta é clara: substituir Teams, Zoom, WhatsApp, Google Docs e Excel por alternativas de código aberto desenvolvidas ou validadas na Europa. O resultado já aparece no bolso: apenas com a ferramenta de videoconferência Visio, a estimativa é economizar € 1 milhão por ano para cada 100 mil usuários.

O kit de sobrevivência digital que a França montou

O portal lasuite.numerique.gouv.fr reúne as alternativas testadas e aprovadas para a administração pública. A lista impressiona pela maturidade:

  • Visio no lugar de Teams e Zoom
  • Tchap substituindo WhatsApp e Slack — já obrigatório para 600 mil servidores
  • Docs (parceria franco-alemã) em vez de Google Docs
  • Grist como alternativa ao Excel

Como o código é aberto, qualquer órgão ou empresa pode instalar sua própria cópia sem pagar licença por usuário. Adicionar gente nova custa zero.

Relato de quem fez a troca: “10 a 20 vezes mais rápido”

O consultor Samuel Berthelot documentou a transição de sua equipe para o ecossistema aberto. As surpresas foram técnicas, não ideológicas: sincronização com OpenCloud de 10 a 20 vezes mais rápida, fim dos custos mensais crescentes de licença, integração fluida entre ferramentas sem silos.

Ele admite o custo de mudança: “será necessário renunciar a hábitos enraizados”. Mas conclui: a hora não é mais de reflexão, é de ação. A infraestrutura resultante é independente, resiliente e europeia.

O espelho invertido: Brasil foi líder, hoje é espectador

O irony não passa despercebido. Nos anos 2000, o Brasil era o epicentro global do software livre. Construímos o Portal do Software Público com estratégia idêntica à europeia atual. Recebíamos em Porto Alegre a maior conferência de open source do planeta, atraindo a nata dos programadores mundiais.

O portal segue no ar — paralisado desde 2018, sem ambição estruturante. A Europa de 2026 executa o que o Brasil de 2005 planejava. O Brasil de 2026 importa o modelo que a Europa abandonou: dependência de big techs estrangeiras para rodar o Estado.

O que separa utopia de viabilidade

Três marcos resumem a virada:

  • Já era — achar que software aberto é utopia
  • Já é — comprovar que é viável econômica e tecnicamente
  • Já vem — a chance de repensar a arquitetura de software do país

O caso francês demonstra que a barreira nunca foi técnica. Foi decisão política sustentada por execução contínua. A Dinum (Departamento Interministerial do Digital) não fez manifesto: fez portfólio, métricas e prazo.

O que observar daqui para frente

Três sinais indicarão se a onda europeia vira maré global ou fica no piloto francês: adoção do Tchap além dos 600 mil servidores atuais; replicação do modelo por outros governos da UE; e movimento de grandes empresas privadas europeias migrando stacks críticas para o ecossistema aberto. Se a Alemanha seguir a parceria no Docs com investimento pesado, o efeito rede acelera. Para o Brasil, a janela não fechou — mas cada ano de inação aumenta o custo de reposicionamento. A infraestrutura digital soberana não se decreta. Se constrói. Ou se perde.