O Irã colocou na mesa uma proposta para reabrir o Estreito de Ormuz em uma semana, mas a resposta de Washington travou o avanço imediato. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, confirmou que o plano depende de condições já acertadas em junho. A bola, agora, está oficialmente com os Estados Unidos.
O que prevê o memorando esquecido de junho
Araghchi afirmou a jornalistas na ONU que o caminho para a normalização já existe no Memorando de Entendimento (MOU) assinado em 18 de junho. O documento de 14 pontos previa cessar-fogo total, fim do bloqueio naval americano e alívio de sanções. Em troca, o Irã garantiria passagem segura a navios comerciais e retomaria o diálogo nuclear.
Segundo o chanceler, “tudo já está preparado” se houver vontade política genuína. Ele evitou detalhar as medidas exigidas de Washington, limitando-se a dizer que não são novas exigências. O presidente Masoud Pezeshkian foi além: prometeu entrada de inspetores da ONU no mesmo dia de um acordo.
A rejeição silenciosa e a ameaça velada
Embora um funcionário americano tenha admitido à BBC que discussões “positivas” ocorrem via mediadores — incluindo o Catar —, o Wall Street Journal revelou o bastidor: Donald Trump teria rejeitado a oferta iraniana. Fontes do jornal afirmam que o presidente considera o Irã incapaz de cumprir o combinado e já avisou assessores que pretende retomar os bombardeios após as legislativas de novembro.
A retórica subiu de tom. Em discurso na Assembleia Geral, Trump oscilou entre a possibilidade de um acordo “logo após as eleições” e a ameaça direta: “Devo aniquilar a República Islâmica rapidamente?”. A réplica de Teerã veio seca: “A paz não se constrói com ameaças de aniquilação”.
O custo do fechamento para o bolso global
Antes do conflito, cerca de 20% do petróleo e GNL mundial cruzavam o estreito. O bloqueio provocou oscilações bruscas nos preços da energia e pressiona a Casa Branca em ano eleitoral. Dados da Kpler mostram a realidade atual: a média recente é de 18 trânsitos por dia, com quedas pontuais para apenas nove embarcações — bem abaixo do fluxo histórico normal.
- Impacto direto: Encadeamento logístico e prêmio de risco no barril.
- Economia iraniana: Bloqueio aos portos causa “danos graves”, segundo a própria diplomacia persa.
- Posição americana: Oficial dos EUA disse à BBC que Washington está “em posição muito forte, sem pressa”.
A frente invisível: Mar Vermelho e Bab al-Mandab
O risco não para em Ormuz. Os houthis, aliados de Teerã, intensificaram ataques no Mar Vermelho visando exportações sauditas. O grupo tomou trechos estratégicos da costa iemenita, incluindo o porto de Mokha, de frente para o Estreito de Bab al-Mandab — segundo gargalo vital para o comércio global.
A escalada forçou a Arábia Saudita a pedir apoio militar direto a Trump. No fim de semana, a coalizão liderada por Riad interceptou mísseis e drones houthi. O cenário desenha uma guerra de dois tabuleiros: Golfo Pérsico e Mar Vermelho interligados pela mesma dinâmica de proxy.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis definirão se a passagem volta à normalidade ou se o conflito escala para além de novembro: a disposição real da Casa Branca em suspender o bloqueio portuário iraniano; a capacidade de Teerã conter proxies regionais enquanto negocia; e o calendário eleitoral americano, que transformou a diplomacia em peça de campanha. O estreito continua fechado. O relógio, porém, não para.
