O Imposto Seletivo estreia em janeiro de 2027 sobre automóveis, mas a alíquota que cada modelo pagará segue desconhecida. A lei que definirá os percentuais nem chegou ao Congresso. Para montadoras e consumidores, a dúvida é direta: a troca do IPI pelo novo tributo manterá a carga ou vai encarecer o carro na concessionária?
O prazo legal pressiona o governo. Para cobrar já no primeiro dia do ano, a norma precisa ser publicada até 3 de outubro de 2026 — noventa dias antes, véspera do primeiro turno das eleições. O calendário político, segundo apuração, pesa na decisão de segurar o anúncio: revelar quais veículos pagarão mais em plena campanha expõe o Palácio do Planalto a desgaste.
O que travou a definição até aqui
Em resposta formal à Câmara dos Deputados, em julho, o Ministério da Fazenda admitiu que as alíquotas dependem de proposta legislativa ainda não enviada. A Receita Federal foi além: sem regulamentação, não consegue sequer estimar a arrecadação do Seletivo. Procurada, a pasta não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
Enquanto Brasília silencia, a indústria planeja no escuro. Fábricas precisam fechar custos, definir preços de tabela e programar linhas de produção para 2027 sem saber quanto de imposto embutir em cada nota fiscal.
IPI Verde como ponte temporária
Uma alternativa em análise no governo é usar, ao menos durante 2027, as regras atuais do IPI Verde como referência para o novo imposto. Hoje, o IPI dos automóveis varia conforme:
- 14 categorias de propulsão (combustão, híbrido, elétrico, etc.)
- 3 faixas de eficiência energética
- 11 faixas de potência
- 2 níveis de segurança
- 3 graus de reciclabilidade
Multiplicados, geram 2.772 enquadramentos tributários possíveis apenas para automóveis de passeio. A complexidade é real, mas o setor já a domina.
“Isso, sendo confirmado, nos dá tranquilidade no curto prazo”, afirma Ricardo Bastos, presidente da ABVE. Igor Calvet, da Anfavea, corrobora: aplicar critérios novos a poucos meses da largada criaria caos operacional para fabricantes e importadores.
Atenção: ponte não garante preço igual
Usar o IPI Verde como base não significa que cada carro pagará o mesmo de hoje. O texto final das alíquotas do Seletivo e a forma de aplicar os critérios é que ditarão a conta. Até a publicação, é impossível cravar quais modelos ficarão mais caros — ou mais baratos — com a mudança.
A lei complementar da reforma já prevê que a alíquota seja graduada por veículo. A lista de fatores vai além do IPI Verde atual:
- Pegada de carbono
- Densidade tecnológica
- Emissões ao longo do ciclo energético
- Etapas de fabricação realizadas no Brasil
Falta definir o peso de cada um na fórmula e a alíquota de partida. Bastos defende que essa discussão ocorra ao longo de 2027, partindo de uma alíquota referência com descontos ou acréscimos por desempenho ambiental e tecnológico. “O que esperamos é que veículos mais tecnológicos, seguros e eficientes paguem menos, enquanto os carros com tecnologia defasada e baixo índice de nacionalização compensem com alíquota maior”, resume.
Simplificação prometida, complexidade mantida
A reforma tributária vende a promessa de simplificar o consumo. Para a Anfavea, o oposto ocorreu. “A simplificação ainda não existiu”, diz Calvet. Montadoras seguem mantendo grandes equipes e sistemas complexos só para calcular a tributação de cada versão.
Mesmo se o IPI Verde servir de ponte em 2027, a solução pode durar um único ano. A lei do Seletivo prevê critérios adicionais cuja regulamentação virá depois. O risco, na visão do setor, é adaptar processos para janeiro e, no mesmo ano, preparar nova mudança para 2028.
O rearranjo competitivo que vem aí
A incerteza atinge direto a formação de preços e o planejamento de portfólio. “Dependendo do que sair dessa regulamentação, isso vai gerar efeito na reorganização e na competição entre os produtos das montadoras”, alerta Calvet. Produtos que hoje não concorrem entre si passarão a disputar o mesmo cliente.
Hoje, modelos de porte, motorização e preço semelhantes brigam pelo mesmo comprador. Com o Seletivo, diferenças de eficiência, reciclabilidade, pegada de carbono e nacionalização alterarão a tributação de cada um. Um carro que custa quase o mesmo que o rival pode ficar mais caro; outro ganha espaço por pagar menos imposto. O inverso também vale: modelos de segmentos distintos podem se aproximar no preço final.
Além do Seletivo, a indústria encara, nos próximos anos, a substituição gradual do ICMS pelo IBS e os reflexos sobre regimes e incentivos estaduais. A sucessão de mudanças torna o planejamento fabril mais difícil justamente na transição que deveria simplificar o sistema.
O que observar daqui para frente
Três marcos ditam o ritmo nos próximos meses: a publicação da norma até 3 de outubro (ou o reconhecimento de que não haverá tempo), o envio do projeto ao Congresso e a definição das alíquotas de partida. Para o empresário do setor, a recomendação prática é manter cenários alternativos de precificação — um com IPI Verde replicado, outro com majoração de 10% a 20% sobre a base atual — e preparar os sistemas para absorver novos critérios já no segundo semestre de 2027. Quem esperar a regra final para se mexer chega atrasado na largada de 2028.
