O Brasil entra no ano eleitoral com o menor desemprego da série histórica (5,3%) e 39,4 milhões de carteiras assinadas — números que, no papel, fariam qualquer governo comemorar. Mas por trás dos recordes, uma estrutura frágil ameaça virar a mesa para o próximo presidente.
A taxa de ocupação bateu 58,9% no trimestre até julho, puxada por um mercado que, paradoxalmente, desacelera sob juros altos. Economistas ouvidos pela reportagem apontam: o ganho quantitativo mascara uma deterioração qualitativa que a reforma de 2017 não resolveu e que a inteligência artificial promete acelerar.
A informalidade que não cai — e o exército invisível dos apps
Três em cada dez trabalhadores (37,5%) seguem na informalidade. Em 2025, cerca de 2 milhões de pessoas tinham o trabalho por aplicativo como ocupação principal. Para 26,8% deles, a flexibilidade foi o atrativo; para quase 25%, não havia alternativa.
Felipe Zuppo, 38, motoboy desde 2012, trocou a CLT pelo guidão do aplicativo. Participou do grupo de trabalho do governo em 2023 e saiu frustrado: “A lei não foi como gostaríamos. Somos trabalhadores e ficamos sem direitos. Não queremos ser CLT, mas queriam nos transformar em ‘trabalhador plataformizado’ pela lei cível”.
O MEI virou refúgio fiscal — e um problema para a Previdência
Janaína Feijó, do FGV Ibre, classifica o Microempreendedor Individual como “bomba fiscal”. Criado para formalizar, o MEI acolhe hoje quem não entra na CLT com contribuição de apenas 5% do salário mínimo. “A plataformização do trabalho é um dos grandes desafios. A reforma de 2017 foi insuficiente. Uma parte desses trabalhadores está totalmente descoberta”, resume.
- Desemprego jul/2024: 5,3% (menor da série desde 2012)
- Ocupação: 58,9% (recorde para o período)
- Carteira assinada setor privado: 39,4 milhões (máximo histórico)
- Informalidade: 37,5% (já superou 40% na série)
- Trabalhadores de app (2025): ~2 milhões
Engenheiro de Uber e o descompasso da formação
Rodolpho Sartori, da Buysidebrazil, nota que o mercado ficou mais resistente a choques — a flexibilização e os apps absorvem mão de obra mesmo com PIB fraco. Mas alerta: “É aquela história do engenheiro que virou motorista de Uber. É meme, mas é verdade”. O desalinhamento entre o que as universidades formam e o que as empresas precisam cria subemprego qualificado.
Nicole Guedes, 22, formada em comunicação social, atende em pet shop no ABC paulista. Passou dois anos como PJ (“gostava da flexibilidade”), hoje comemora a CLT 6×1 com benefícios. “Fiquei um tempo desempregada. Agora tenho estabilidade”.
O que os presidenciáveis colocam na mesa
As propostas revelam visões opostas sobre como equacionar direitos, custos e inovação:
- Lula (PT): regulamentar trabalho por app com direitos previdenciários e transparência algorítmica; fim da escala 6×1 sem corte salarial; combater pejotização; reformar financiamento da Previdência.
- Flávio Bolsonaro (PL): reduzir custo do trabalho gradualmente; contratos mais baratos para jovens 18-24 anos e desempregados 50+; priorizar Bolsa Família em qualificação.
- Romeu Zema (Novo): regime alternativo à CLT com negociação livre de jornada, férias e salário; jornada diária acima de 8h (limite 44h semanais); menos encargos.
- Ronaldo Caiado (PSD): ensino técnico focado em IA, automação, dados e cibersegurança; requalificação em massa.
- Augusto Cury (Avante): empreendedorismo contra desemprego da IA; transformar Bolsa Família em porta de entrada no mercado.
O que observar daqui para a frente
O próximo governo herdará um mercado cheio, mas oco por dentro. Três variáveis ditarão se os recordes viram sustentabilidade ou miragem: a velocidade da regulação do trabalho por plataforma (o STF e a OIT pressionam), a capacidade de financiar a Previdência com uma base contributiva cada vez mais leve, e a reforma do ensino médio/técnico para parar de formar engenheiros para dirigir carro alheio. O dado de julho é foto. O filme de 2026 começa a ser rodado agora.
