Sete nomes disputam o Palácio do Campo das Princesas e, neste sábado (26), o mapa de Pernambuco foi o tabuleiro. De panfletagem em estádio lotado a carretas cruzando o Sertão profundo, a estratégia de cada campanha revela onde a batalha por votos será mais dura. A movimentação expõe, mais do que discursos, a geografia eleitoral que deve ditar o ritmo da corrida até outubro.
Mas por que a atual governadora e o principal adversário escolheram rotas tão diferentes no mesmo dia? A resposta está na matemática das urnas.
O xadrez do Sertão: Raquel Lyra vs. João Campos
A reeleição de Raquel Lyra (PSD) apostou na capilaridade. A agenda começou cedo em Petrolina, maior colégio eleitoral do interior, seguiu para a Rua da Aurora, no coração do Recife, e encerrou com caminhadas em Orobó e Bom Jardim, no Agreste Setentrional. O roteiro desenha um “L” que liga o Sertão do São Francisco à capital e sobe pela zona da cana.
Do outro lado, João Campos (PSB) ignorou a Região Metropolitana. O ex-prefeito do Recife concentrou 100% da força em um “arrastão” pelo Sertão do Pajeú. O itinerário foi cirúrgico: São José do Egito, Itapetim, Tuparetama, Ingazeira, Afogados da Ingazeira, Carnaíba e Serra Talhada. Sete municípios em um único dia, todos conectados pela mesma microrregião.
Por que o Pajeú virou a “menina dos olhos” da oposição?
A escolha não é aleatória. O Pajeú historicamente vota em bloco e tem peso proporcional maior que a população sugere. Em 2022, a região deu margens expressivas ao palanque de Miguel Coelho e Marília Arraes. Para Campos, abrir vantagem ali é pré-requisito para chegar ao segundo turno competitivo. Para Lyra, segurar a sangria nesses municípios — onde esteve presente à tarde — é questão de sobrevivência matemática.
- Estratégia “Mini Carretas”: Campos usou veículos menores para acessar ruas estreitas de cidades médias, priorizando contato visual repetido em vez de grandes comícios.
- Símbolo da gestão: Lyra usou a Rua da Aurora (sede do governo) à tarde para reforçar a imagem de “governadora trabalhando”, contrastando com o adversário “em campanha”.
O centro do Recife e a batalha pelas periferias
Enquanto os dois principais nomes mediam forças no interior, a capital fervilhava com agendas de nicho. Ivan Moraes (PSOL) fez a maratona mais urbana: comitê em Casa Forte (Zona Norte), panfletagem em Paulista, ato suprapartidário na Caxangá (Zona Oeste), caminhada no Guadalupe (Olinda) e fechamento cultural no Derby. O roteiro mapeia exatamente o eleitorado de esquerda que decide eleições na capital.
Guilherme Fonseca (PSTU) mirou o trabalhador formal: panfletagem no centro de São Lourenço da Mata pela manhã e debate sobre educação na Boa Vista à tarde. Já Professora Camila (UP) colou na vice-presidenciável Raquel Bricio, focando em Jaboatão dos Guararapes (Mercado das Mangueiras, Ocupação Selma Bandeira) e Camaragibe — cinturões de moradia popular.
O detalhe que passou despercebido nos Aflitos
A cena mais inusitada do dia coube a Victor Assis (PCO). Enquanto a bola rolava para Náutico x Sport nos Aflitos, o candidato fez panfletagem nas arquibancadas. Clássicos regionais concentram, em 90 minutos, o eleitorado mais apaixonado e diversificado do estado — do empresário ao torcedor de organizada. É publicidade de alto impacto com custo zero de estrutura.
Renan Hallais (Missão) optou pelo microfone fechado: encontro noturno com apoiadores na comunidade do Tatu Bola, no Pina (Zona Sul). A aposta é na fidelização de militância de base para tentar furar a bolha das redes sociais.
O que observar daqui para frente: o calendário invisível
O sábado mostrou que a campanha de 2026 não será decidida nos grandes palanques, mas na logística de final de semana. Fique atento a três sinais nas próximas semanas:
- Frequência no Interior: Se João Campos repetir a dose no Sertão a cada 15 dias, a estratégia é consolidar o “voto de cabresto” invertido. Se Raquel Lyra aumentar caravanas no Agreste, é defesa de território.
- Agendas Noturnas: O ato de Hallais no Pina e o fechamento de Moraes no Derby sugerem que a briga pelo eleitor jovem e noturno da capital vai esquentar.
- Eventos de Massa vs. Porta a Porta: A panfletagem no estádio (PCO) e as mini-carretas (PSB) indicam que campanhas com menos verba pública (Fundo Eleitoral) vão apostar em “guerrilha” logística.
O mapa está posto. Agora é contar quantos fins de semana como este cada estrutura aguenta sustentar até o dia da votação.
