O Brasil entra no ano pré-eleitoral com o menor desemprego da série histórica — 5,3% no trimestre até julho — e 39,4 milhões de vagas formais, um pico inédito. Mas, por trás dos números de festa, especialistas alertam: a qualidade desse ocupação e a sustentabilidade fiscal estão sob ameaça direta.
A taxa de ocupação bateu 58,9%, também recorde para o período. Na comparação com 2022, quando o desemprego beirava 9%, o avanço quantitativo é inegável. A questão que fica é se o próximo governo herdará um motor aquecido ou uma bomba-relógio prestes a explodir.
Onde o brilho dos indicadores perde força
A informalidade teima em não ceder: 37,5% da força de trabalho segue sem carteira ou CNPJ. O contingente de trabalhadores de aplicativos saltou para cerca de 2 milhões de pessoas em 2025, segundo módulo especial da Pnad Contínua. Para 26,8% deles, a flexibilidade é o atrativo; para 24,6%, a única saída foi a falta de alternativa.
Janaína Feijó, economista do FGV Ibre, resume o dilema: a melhora quantitativa convive com desafios qualitativos agravados por juros altos e desaceleração. “Se o país não cuidar da parte macrofiscal, todos os ganhos podem ser exauridos”, avisa. Ela aponta a “pejotização” via MEI como uma bomba fiscal silenciosa, já que recolhe apenas 5% de um salário mínimo contra a carga cheia da CLT.
A reforma que não alcançou a “uberização”
A legislação trabalhista de 2017 não previu a exploração algorítmica. Felipe Zuppo, 38, motoboy desde 2012, trocou a carteira assinada pelo aplicativo e participou de grupo de trabalho no governo atual. O resultado? Impasse. “O lobby é gigantesco. A lei não saiu como queríamos: somos trabalhadores sem direitos trabalhistas”, relata.
Para a economista, há uma zona cinzenta perigosa entre entregadores e motoristas de passageiros. Parte significativa dessa força de trabalho está “totalmente descoberta” pela legislação vigente, criando passivo previdenciário e jurídico que o próximo presidente herdará inevitavelmente.
O engenheiro no volante e o abismo da formação
Rodolpho Sartori, da Buysidebrazil, vê o mercado mais resistente a choques graças à flexibilização e às novas ocupações. Porém, destaca um descompasso cruel: a incapacidade de absorver mão de obra qualificada. “É o engenheiro virando motorista de Uber. É meme, mas é realidade”, ilustra.
Nicole Guedes, 22, formada em Comunicação, viveu os dois lados. Foi PJ por dois anos, gostava da flexibilidade, mas hoje comemora a vaga CLT em um pet shop no ABC paulista. “Trabalho 6×1, mas tenho benefícios. Depois de um tempo desempregada, a segurança pesou mais.” O relato expõe a preferência revelada: quando há escolha, a proteção vence a autonomia precária.
- Desemprego: 5,3% (mínima histórica para jul/2024)
- Ocupação: 58,9% (recorde da série)
- Emprego formal privado: 39,4 milhões (recorde)
- Informalidade: 37,5% (estagnada)
- Trabalhadores de apps (2025): ~2 milhões
O que os presidenciáveis colocam na mesa
As propostas revelam visões antagônicas para o mesmo diagnóstico:
- Lula (PT): Regulamentação de apps com direitos previdenciários, fim da escala 6×1, combate à pejotização e valorização do salário mínimo.
- Flávio Bolsonaro (PL): Redução gradual do custo do trabalho, contratos mais baratos para jovens (18-24) e 50+, prioridade a beneficiários do Bolsa Família.
- Romeu Zema (Novo): Regime alternativo à CLT com jornada negociável acima de 8h/dia (limite 44h/semana) e menos encargos.
- Ronaldo Caiado (PSD): Foco em ensino técnico, requalificação em IA, dados e cibersegurança.
- Augusto Cury (Avante): Empreendedorismo como antídoto ao desemprego tecnológico e transformação do Bolsa Família em porta de entrada no mercado.
O radar para os próximos meses
A resiliência do emprego frente a juros restritivos surpreendeu analistas, mas a continuidade desse cenário depende de variáveis que fogem ao controle do mercado de trabalho: trajetória fiscal, taxa de câmbio e velocidade da adoção de IA em setores de entrada. O próximo passo é observar se a geração de vagas formais mantém fôlego no segundo semestre ou se a desaceleração econômica começa a morder as estatísticas. Para o investidor e o empresário, o sinal de alerta está no custo unitário da mão de obra: se a produtividade não acompanhar os reajustes reais, a rentabilidade aperta e o ímpeto de contratar arrefece — independentemente de quem sentar na cadeira presidencial em 2027.
