O presidente Lula subiu ao palco do hotel Tivoli, nos Jardins, diante de 700 dos nomes mais influentes do empresariado brasileiro e entregou a mensagem que a plateia queria ouvir: estabilidade fiscal não é mérito, é obrigação. A frase arrancou aplausos. Mas o que aconteceu nos corredores e no camarote restrito revela muito mais sobre o xadrez político de 2026 do que o discurso oficial.
O recado direto para quem financia campanhas
Lula não pediu votos. Disse que não precisa “falar mal de ninguém” e alertou: “Não pode blefar. Se blefar, vai quebrar a cara.” A plateia — donos de bancos, siderúrgicas, frigoríficos, mineradoras — entendeu o recado. O tom foi de quem já se vê no segundo mandato e quer alinhar expectativas.
O presidente trocou a meta das “três refeições por dia” por um horizonte mais ambicioso: transformar o Brasil em um país de classe média. “Se o trabalhador ganhar mais, o empresário ganha mais”, argumentou, vincando a tese de que consumo interno impulsiona produção.
As conversas que importavam aconteciam nas laterais
Enquanto o microfone estava com Lula, rodas paralelas discutiam o que realmente move votos em outubro. Dois temas dominaram:
- Fim das bets: um auxiliar presidencial confirmou que a decisão de banir apostas e cassinos online nasceu da “indignação pessoal” de Lula com o vício — não de cálculo eleitoral.
- Bolsa Família turbinado: empresários questionavam se o aumento do benefício mexeria na decisão de voto das camadas mais pobres.
Joesley Batista (JBS) e Rubens Ometto (Cosan) circularam entre o vice Alckmin e o presidente do PT, Edinho Silva. Milton Maluhy (Itaú), Gustavo Pimenta (Vale) e Ivan Monteiro (Axia) observavam de perto.
O camarote dentro do camarote
Quando Lula chegou, abriu-se um espaço ainda mais restrito: o “VIP Plus A+”. Anfitriões Marco Aurélio de Carvalho (Prerrogativas) e João Carlos Camargo (Esfera Brasil) receberam o presidente, que fez questão de abraçar longamente Almino Afonso, ex-deputado de 97 anos, único nome da velha guarda presente no salão principal.
Do lado governista, três ministros compunham a comitiva: Alexandre Silveira (Minas e Energia), Alexandre Padilha (Saúde) e Fernando Haddad — este, cotado para o governo paulista em 2026.
O que observar daqui para frente
O evento não foi apenas um jantar. Funcionou como termômetro: o empresariado de peso compareceu, aplaudiu a retórica fiscalista e ouviu, sem rebater, a defesa de salários mais altos como motor de crescimento. A dúvida que fica no ar — e que ninguém respondeu no microfone — é até que ponto a retórica de “país de classe média” sobrevive à negociação orçamentária de 2025. O próximo encontro dirá mais que mil discursos.
