Economia

Desenrola 3.0: O segredo por trás da compra de dívidas com 90% de desconto

Programa Desenrola 3.0: governo federal compra dívidas antigas com 90% de desconto para aliviar 15 milhões de devedores
Nova fase do Desenrola permite União adquirir carteiras de crédito podre em leilão e repassar abatimento integral ao devedor.

O governo federal publicou medida provisória que autoriza a União a adquirir carteiras de crédito podre em leilão e repassar o abatimento integral ao devedor. A nova fase do Desenrola mira dívidas antigas — entre dois e quatro anos de atraso — e promete injetar fôlego no orçamento de até 15 milhões de pessoas. Mas as regras de elegibilidade são mais restritas do que parecem.

Diferente das etapas anteriores, onde credor e devedor negociavam diretamente, agora o Estado atua como comprador de último recurso. O desconto mínimo nos leilões será de 90%; uma dívida original de R$ 10 mil cai para R$ 1 mil na renegociação. O saldo pode ser quitado à vista ou parcelado, com juros a serem definidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Quem realmente se encaixa no novo desenho

O público-alvo não é o inadimplente recente. A MP estabelece uma janela temporal precisa: débitos com atraso entre 720 e 1.645 dias, contados a partir de 25 de setembro de 2026. O teto é de R$ 10 mil pelo valor original da dívida, abrangendo tanto passivos bancários quanto contas de água, energia, telefonia e varejo — estes últimos representam 55% do estoque total negativado.

Critérios adicionais de renda e priorização ainda serão editados pelo Ministério da Fazenda. Portanto, não basta ter o nome sujo há anos; o enquadramento dependerá de portarias futuras.

  • Valor original: até R$ 10 mil
  • Atraso: 720 a 1.645 dias (2 a 4,5 anos)
  • Natureza: bancária e não bancária
  • Desconto mínimo no leilão: 90%

O cronograma que o mercado deve monitorar

A operacionalização não é imediata. O calendário da MP prevê etapas burocráticas que empurram o início efetivo para o primeiro trimestre de 2027. Investidores e gestores de carteira de crédito devem atentar para as datas:

  • Nov/2026: Publicação do edital de chamamento aos credores
  • Dez/2026: Entrega das propostas de deságio
  • Jan/2027: Homologação dos lotes vencedores
  • Fev/2027: Assinatura dos contratos e início do repasse dos descontos

Até lá, as carteiras permanecem nos balanços dos credores originais, sem a provisão de perda que a venda à União anteciparia.

Impacto fiscal e tamanho do mercado endereçável

O Tesouro Nacional estima um estoque de R$ 592 bilhões em dívidas inadimplidas (até cinco anos de atraso) em agosto de 2026, distribuídas entre 83,9 milhões de pessoas. Desse total, o governo calcula que R$ 150 bilhões se enquadram nos critérios da terceira fase, com potencial de renegociação efetiva de R$ 75 bilhões.

O custo máximo da aquisição das carteiras está orçado em R$ 15 bilhões, a serem provisionados nos orçamentos de 2027 e 2028. Para efeito de comparação, as duas primeiras fases somaram R$ 75 bilhões em dívidas renegociadas e atenderam 25 milhões de pessoas.

O que muda para credores e secundaristas

A lógica do leilão por maior deságio inverte a dinâmica de recuperação: vence quem aceitar o menor preço. Para bancos e empresas de securitização, a venda à União vira uma opção de liquidez certa para ativos “fora da curva” de cobrança, ainda que com haircut agressivo. O risco está na definição dos lotes — a separação entre dívidas bancárias e não bancárias pode criar distorções de preço entre segmentos.

Além disso, o parcelamento do saldo remanescente (com juros do CMN) reintroduz risco de crédito no balanço público se o devolver não honrar as novas parcelas. A primeira fase do programa teve inadimplência residual baixa, mas o perfil deste público — dívidas mais antigas e valores menores — é distinto.

O que observar daqui para frente

A peça que falta para fechar a equação econômica é a resolução do CMN sobre taxas e prazos do parcelamento. Juros altos tornam a opção à vista mais atraente, mas reduzem a adesão de quem não tem caixa. Outro ponto sensível é a execução orçamentária: os R$ 15 bilhões dependem de aprovação no Congresso nos próximos dois PLOAs. Se o fluxo de caixa do Tesouro apertar, o cronograma de leilões pode ser fracionado, alongando a incerteza para credores que aguardam a venda. Para o devedor, a recomendação prática é monitorar os canais oficiais a partir de novembro para confirmar se seu CPF consta nos lotes habilitados.