Economia

Brasil em 2026: emprego em alta, mas informalidade e IA assombram o próximo governo

Trabalhadores brasileiros diversos em cenário urbano com gráficos de emprego e ícones de IA
Brasil em 2026: recorde de emprego formal convive com 40% de informalidade e avanço da IA

O Brasil entra no ano eleitoral com o menor desemprego da história recente — 5,3% no trimestre até julho — e 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada, recorde absoluto. Por trás dos números positivos, porém, esconde-se uma fragilidade estrutural que o próximo presidente herdará: quase 40% da força de trabalho ainda atua na informalidade.

A expansão do emprego formal não impediu o avanço da pejotização, da uberização e do descompasso entre formação e demanda. Especialistas alertam: sem ajuste fiscal e regulação moderna, os ganhos atuais podem se evaporar.

O paradoxo dos recordes

Dados da Pnad Contínua mostram que a taxa de ocupação atingiu 58,9% no mesmo período, o melhor nível da série histórica iniciada em 2012. Em 2022, o desemprego estava em 9,1%. A melhora quantitativa é inegável.

Mas a economista Janaína Feijó, do FGV Ibre, aponta o risco imediato: a economia desacelera e os juros altos freiam a criação de vagas formais. “Se o país não cuidar da parte macrofiscal, todos os ganhos podem ser exauridos”, resume.

O motoboy Felipe Zuppo, 38, ilustra a transição. Teve carteira assinada, migrou para aplicativos em 2012 e participou de grupo de trabalho no governo Lula que não chegou a consenso sobre regulação. “A lei não foi como gostaríamos. Somos trabalhadores e ficamos sem direitos”, diz.

Os quatro gargalos que o próximo presidente enfrenta

Especialistas convergem para quatro desafios centrais que atravessam governos e ideologias:

  • Plataformização sem proteção: 2 milhões de brasileiros tinham trabalho principal ou secundário em apps em 2025. Para 26,8%, a flexibilidade foi o atrativo; 24,6% citaram falta de alternativa.
  • MEI como “bomba fiscal”: O regime absorve trabalhadores sem vínculo CLT com contribuição de apenas 5% do salário mínimo, pressionando a Previdência.
  • IA e vagas de entrada: Automação ameaça postos iniciais, justamente onde jovens e menos qualificados ingressam no mercado.
  • Descompasso educacional: Engenheiros dirigindo Uber viraram símbolo real de uma formação que não dialoga com a demanda empresarial.

Reforma de 2017: escudo ou insuficiência?

Para Rodolpho Sartori, da Buysidebrazil, a flexibilização da reforma trabalhista e o surgimento de ocupações em apps tornaram o mercado mais resistente a choques. Os indicários seguraram-se mesmo com juros altos e PIB fraco.

Essa resiliência, porém, não resolve a absorção de mão de obra qualificada. “É aquela história do engenheiro que virou motorista de Uber. É um meme, mas é verdade”, afirma Sartori.

A informalidade, embora abaixo do pico histórico de 40%, estacionou em 37,5%. A redução estagnou justamente quando o emprego formal mais crescia.

O que propõem os presidenciáveis

As pré-candidaturas já desenham abordagens distintas:

  • Lula (PT): regulamentação de apps com direitos e transparência algorítmica, fim da escala 6×1, valorização do salário mínimo e combate à pejotização.
  • Flávio Bolsonaro (PL): redução gradual do custo do trabalho, contratos mais baratos para jovens 18-24 e desempregados 50+.
  • Romeu Zema (Novo): regime alternativo à CLT com negociação livre de jornada, férias e remuneração, teto de 44 horas semanais.
  • Ronaldo Caiado (PSD): ensino técnico focado em IA, automação, dados e cibersegurança.
  • Augusto Cury (Avante): empreendedorismo como resposta ao desemprego tecnológico e Bolsa Família como porta de entrada no mercado.

O que observar nos próximos meses

O cenário macroeconômico ditará o ritmo: se o ajuste fiscal avançar e os juros caírem, a formalização pode acelerar. Caso contrário, a pressão por regulação de apps e revisão do MEI tende a virar pauta obrigatória no primeiro ano do próximo mandato.

Para empresários e investidores, o sinal claro é a necessidade de planejar contratações considerando um arcabouço trabalhista em transição — e um mercado onde qualificação técnica e adaptabilidade valem mais que diplomas tradicionais.