O Brasil entra no ano eleitoral com números de emprego que seriam invejados há uma década: 5,3% de desocupação no trimestre até julho, o menor patamar da série histórica do IBGE iniciada em 2012. Em 2022, o mesmo indicador marcava 9,1%. A ocupação bateu recorde (58,9%) e o total de empregados com carteira no setor privado alcançou 39,4 milhões — o maior volume já registrado.
Por trás da festa estatística, porém, esconde-se uma estrutura frágil que o próximo presidente herdará. A informalidade ainda engole 37,5% da força de trabalho, a “pejotização” avança sobre direitos e a inteligência artificial ameaça vagas de entrada. O diagnóstico de especialistas ouvidos pela reportagem é unânime: o próximo governo terá de escolher entre regular o novo mundo do trabalho ou assistir à erosão dos ganhos recentes.
O abismo entre quantidade e qualidade
Para a economista Janaína Feijó, do FGV Ibre, a melhora quantitativa convive com “desafios qualitativos agravados pela desaceleração da economia e pelos juros altos”. Ela alerta: “Se o país não cuidar da parte macrofiscal, todos os ganhos podem ser exauridos. E mesmo com cuidado, não vamos voltar a ver essas mínimas.”
O motorista de aplicativo Felipe Zuppo, 38, resume o drama. Teve carteira assinada, migrou para plataformas em 2012 e participou, em 2023, de grupo de trabalho no governo Lula que não chegou a consenso sobre regulação. “A lei não foi como gostaríamos. Nós somos trabalhadores e ficamos sem direitos. A gente não quer ser CLT, mas queriam transformar a gente em trabalhador plataformizado, pela lei cível.”
O MEI como “bomba fiscal” e o desencontro de formações
Feijó aponta o Microempreendedor Individual como risco oculto. Criado para formalizar pequenos negócios, o MEI acolhe hoje trabalhadores que deveriam ter contrato CLT, mas contribuem com apenas 5% do salário mínimo para a Previdência. O resultado: buraco futuro no INSS e proteção frágil no presente.
Há ainda o descompasso educacional. “É ruim pensar que se deve fazer um curso só porque o mercado demanda, mas no mercado existe oferta e demanda”, diz a economista. “Networking importa muito, e pessoas de comunidade não têm esse networking.”
Nicole Guedes, 22, formada em comunicação social, ilustra o dilema. Dois anos como PJ deram flexibilidade; hoje, atendente em pet shop no ABC paulista, comemora a carteira assinada e benefícios, embora trabalhe em escala 6×1. “Fiquei um tempo desempregada. Estou feliz por ser CLT.”
Resiliência estranha e o engenheiro no Uber
Rodolpho Sartori, da Buysidebrazil, nota que o mercado ficou “mais resistente a choques”. Mesmo com juros altos e PIB desacelerando, os indicadores seguram-se. Ele cita duas hipóteses: a flexibilização da reforma trabalhista de 2017 e o surgimento de ocupações via aplicativos.
Mas a resiliência mascara um desperdício de capital humano. “É aquela história do engenheiro que virou motorista de Uber. É um meme, mas é verdade”, resume Sartori. A absorção de profissionais qualificados em funções de baixa complexidade trava a produtividade.
O que os presidenciáveis colocam na mesa
- Lula (PT): regulamentação de trabalho em plataformas com direitos, transparência algorítmica e cobertura previdenciária; fim da escala 6×1; valorização do salário mínimo; combate à pejotização.
- Flávio Bolsonaro (PL): redução gradual do custo do trabalho; contratos mais baratos para jovens de 18 a 24 anos e desempregados 50+; prioridade a beneficiários do Bolsa Família em vagas e qualificação.
- Romeu Zema (Novo): regime alternativo à CLT com negociação livre de jornada, férias e remuneração; jornada diária acima de 8h com limite semanal de 44h; menos encargos.
- Ronaldo Caiado (PSD): ensino técnico, requalificação e currículos voltados a IA, automação, dados e cibersegurança.
- Augusto Cury (Avante): empreendedorismo contra desemprego tecnológico; transformar Bolsa Família em porta de entrada no mercado.
O que observar daqui para frente
O próximo trimestre dirá se a desaceleração econômica começa a morder os recordes de ocupação. Dois gatilhos merecem vigilância: o julgamento no STF sobre a relação de emprego em aplicativos — que pode forçar uma regulação nacional — e a tramitação da proposta de fim da escala 6×1 no Congresso. Se o crescimento do PIB ficar abaixo de 1,5% em 2025, a geração de vagas formais tende a travar, empurrando mais trabalhadores para a informalidade ou para o MEI. Para o empresário e o investidor, a leitura é clara: a conta da precarização chegará na forma de passivo trabalhista, risco previdenciário ou instabilidade regulatória. Quem antecipar a transição para modelos híbridos de contratação — com segurança jurídica e flexibilidade real — larga na frente.
