Economia

Desenrola 3.0: Governo compra sua dívida e repassa desconto de 90%…

Ilustração do Desenrola 3.0: dívida de R$ 10 mil cai para R$ 1 mil com desconto de 90% em leilão do governo
Programa Desenrola 3.0 permite quitar dívidas com 90% de desconto via leilões de créditos inadimplidos pela União.

A União passará a comprar carteiras de dívidas inadimplidas em leilões e transferirá o desconto integral ao devedor, mudando a lógica das negociações anteriores. A medida provisória foi publicada em 25 de setembro de 2026, mas as regras de elegibilidade são restritas.

O programa, batizado de Desenrola 3.0, prevê deságio mínimo de 90% na aquisição dos débitos. Na prática, uma dívida original de R$ 10 mil pode cair para R$ 1 mil para quitação à vista.

Como funciona o leilão reverso

Diferente das fases passadas, onde credor e devedor negociavam diretamente, agora o Estado atua como intermediário financeiro. O processo ocorre em seis etapas sequenciais:

  • A União abre leilão para comprar carteiras de credores;
  • Credores ofertam propostas de desconto (deságio);
  • Vence quem oferecer o maior abatimento;
  • O desconto conquistado é repassado 100% ao consumidor;
  • O devedor quita o saldo residual à vista ou parcelado;
  • Regras de parcelamento (juros e prazos) serão definidas pelo CMN.

Essa estrutura elimina a assimetria de informação entre bancos e clientes, pois o leilão força a competição pelo maior desconto possível.

Quem tem direito ao benefício

Não basta estar negativado. A MP desenhou um recorte temporal e valoroso preciso para focar nas dívidas “esquecidas” ou de difícil recuperação. Os critérios obrigatórios são:

  • Valor original da dívida até R$ 10 mil;
  • Atraso entre 720 dias (2 anos) e 1.645 dias (4,5 anos), contados a partir de 25/09/2026;
  • Dívidas bancárias (cartão, cheque especial, empréstimo) e não bancárias (água, luz, telefone, varejo);
  • Critérios adicionais de renda e priorização poderão ser editados pelo Ministério da Fazenda.

Dívidas recentes (menos de 2 anos) ou muito antigas (mais de 4,5 anos) ficam de fora desta fase.

O cálculo do desconto na prática

O piso do deságio é agressivo: 90%. Se um banco vender uma carteira com esse desconto mínimo, o devedor assume apenas 10% do valor original. Exemplos:

  • Dívida de R$ 5.000,00 → Saldo devedor de R$ 500,00;
  • Dívida de R$ 10.000,00 → Saldo devedor de R$ 1.000,00.

O consumidor pode pagar esse resquício à vista, mantendo o abatimento total, ou parcelar. No parcelamento, incidirão juros definidos posteriormente pelo Conselho Monetário Nacional, o que pode reduzir a vantagem econômica.

Cronograma: quando o dinheiro chega no bolso

O governo estabeleceu um calendário técnico apertado para operacionalizar os leilões ainda este ano:

  • Novembro/2026: Publicação do edital de chamamento aos credores;
  • Dezembro/2026: Entrega das propostas de deságio pelos credores;
  • Janeiro/2027: Homologação dos lotes vencedores;
  • Fevereiro/2027: Assinatura dos contratos e início do repasse dos descontos aos devedores.

A quitação ou parcelamento pelos consumidores começa, portanto, a partir de fevereiro de 2027. Os recursos para a compra (estimados em até R$ 15 bilhões) dependem de previsão orçamentária nos PLOAs de 2027 e 2028.

O tamanho do problema por trás do programa

A abrangência potencial justifica o esforço fiscal. Dados do Tesouro Nacional de agosto de 2026 revelam um cenário de inadimplência estrutural:

  • Estoque total inadimplido: R$ 592 bilhões (até 5 anos de atraso);
  • 83,9 milhões de pessoas negativadas;
  • Média de 4 dívidas por CPF;
  • Valor médio por pessoa: R$ 7 mil;
  • 56% dos negativados são mulheres;
  • 55% do estoque refere-se a dívidas não bancárias (utilities, varejo).

A estimativa oficial aponta que R$ 150 bilhões se encaixam nos critérios do Desenrola 3.0, com potencial para renegociar efetivamente R$ 75 bilhões e beneficiar 15 milhões de pessoas.

O que muda em relação às fases anteriores

Nas duas primeiras edições, o governo atuou como facilitador e garantidor, mas a negociação era bilateral. O Desenrola 1 atendeu 15 milhões de pessoas (R$ 53 bi renegociados) e o Desenrola 2 atendeu 10 milhões (R$ 22 bi).

Agora, a União assume o risco de crédito ao comprar a carteira. O incentivo para o credor vender é a liquidez imediata de ativos “podres” provisionados como prejuízo. Para o devedor, a vantagem é a padronização do desconto máximo, sem necessidade de barganha individual.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o sucesso real da medida nos próximos meses. Primeiro, a adesão dos credores: se os deságios ofertados no leilão ficarem muito acima dos 90% mínimos, o benefício ao devedor aumenta, mas o custo fiscal sobe. Segundo, a regulamentação do parcelamento pelo CMN: juros altos no financiamento do saldo residual podem tornar a quitação à vista a única opção viável para a população de baixa renda. Terceiro, a execução orçamentária: a liberação dos R$ 15 bilhões depende de aprovação no Congresso nos próximos dois anos.

Para o empresário ou investidor, o sinal relevante é a injeção de liquidez no sistema financeiro via limpeza de balanços dos credores e a potencial recuperação de capacidade de consumo de 15 milhões de CPFs a partir do primeiro trimestre de 2027.