Justiça

Lula defende reforma no STF e ataca Banco Master em encontro com 700 empresários

Lula discursa em evento da Esfera Brasil para 700 empresários em São Paulo
Presidente Lula defende reforma no STF e critica Banco Master em encontro com executivos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom em São Paulo diante de uma plateia de quase 700 executivos: defendeu mandato para ministros do Supremo, chamou o dono do Banco Master de “malandro” e avisou que estabilidade fiscal “não é mérito, é obrigação”. O recado foi direto — e deixou muita gente incomodada.

O evento, promovido pela Esfera Brasil no Hotel Tivoli Mofarrej, reuniu nomes como Joesley Batista (J&F), Gustavo Pimenta (Vale), Milton Maluhy (Itaú) e Rubens Ometto (Cosan). A expectativa era por sinais claros sobre a política econômica. O que se ouviu foi um misto de prestação de contas, campanha eleitoral e ataques pessoais.

O número que o governo quer vender

Lula abriu o discurso com uma métrica: herdou déficit de 2,8% do PIB e promete superávit de 0,1% em 2024. A plateia ouviu em silêncio. O presidente rejeitou cortes na Previdência ou em programas sociais como caminho para o equilíbrio — “tornar o pobre mais pobre”, nas palavras dele.

Responsabilidade fiscal e social, segundo ele, precisam andar juntas. A fala mirou a crítica recorrente do mercado sobre gastos obrigatórios. Não houve anúncio de nova medida concreta, apenas a reafirmação da trajetória atual.

Reforma no Judiciário: o ponto mais sensível

Foi ao defender mudanças no STF que Lula tocou no nervo exposto da relação entre Poderes. Propôs discutir fim da vitaliciedade e novo modelo de escolha dos ministros. “A sociedade vai ter que se manifestar, porque o que está acontecendo não é bom para o país”, disse.

A declaração ocorre em meio a tensões recentes entre Executivo e Judiciário. Empresários presentes relataram desconforto: o tema não estava na pauta esperada de economia. Alguns deixaram o salão antes do fim da fala.

O ataque nominal a Daniel Vorcaro

O momento mais inusitado veio quando Lula citou nominalmente o controlador do Banco Master. “Esse Vorcaro devia ser um malandro mesmo […] O que ele não corrompeu com dinheiro, ele corrompeu com orgia”, afirmou, sem apresentar provas no palanque.

O Banco Master enfrenta investigações e problemas de liquidez. A menção direta a um empresário presente no circuito financeiro causou murmúrios. Advogados de Vorcaro já anunciaram que vão processar o presidente por calúnia e difamação.

Agências reguladoras na mira

Lula mirou a ANP (Agência Nacional do Petróleo) e o modelo atual de regulação. Disse ter chamado a direção para explicar falhas de fiscalização e ouviu como resposta a quantidade de servidores em teletrabalho. “Então não tem como fiscalizar”, ironizou.

O recado: “As agências vão ter que voltar a ser agência reguladora, e quem define a política pública é o Estado brasileiro.” A fala sinaliza intenção de maior controle político sobre autarquias — ponto sensível para investidores que prezam autonomia técnica.

Grau de investimento e a cobrança do setor

Marcos Almeida, CEO da Brookfield no Brasil, resumiu o sentimento de parte da plateia ao pedir publicamente: “Que o governo lute para reconquistar o grau de investimento.” A canadense controla metade da Ascenty, maior operadora de data centers do país.

Lula reconheceu a queda do risco-país, mas cobrou das agências de rating — disse ter ido aos EUA questioná-las. O Brasil perdeu o selo de bom pagador em 2015 e ainda não o recuperou, apesar da melhora nos indicadores recentes.

Data centers, energia e a briga por soberania digital

O presidente celebrou a aprovação do Redata (incentivo a data centers), mas alertou: “Gasta-se muita energia. A gente não pode permitir que a energia produzida para a sociedade seja usada para data center.” A expansão da geração será condição para novos projetos.

Foi além: defendeu infraestrutura tecnológica própria. “Não quero ficar brigando entre a China e os Estados Unidos para saber qual é a inteligência artificial. Quero a nossa.” A fala alinha-se à estratégia de processar minerais críticos no Brasil, não apenas exportá-los brutos.

Autonomia do Banco Central: a ironia final

Perto do fim, Lula cutucou a independência formal da autoridade monetária — conquistada em 2021 com apoio do setor privado. “Vocês brigaram pelo Banco Central independente […] mas agora virou um zoo. Mas vocês que pediram, não fui eu.”

A taxa Selic está em 10,5% ao ano. Empresários reclamam do custo do crédito e do endividamento das famílias. A autonomia impede interferência direta, mas a crítica pública do presidente pressiona a diretoria colegiada.

O que observar nas próximas semanas

Três frentes merecem atenção: (1) tramitação de eventual PEC para mandatos no STF — depende de articulação no Congresso; (2) desdobramentos jurídicos da fala sobre Vorcaro — pode gerar constrangimento institucional; (3) novos decretos sobre regulação setorial — sinalizam o grau de intervenção nas agências.

O mercado já precificou parte do discurso. O teste real virá com a execução orçamentária do segundo semestre e a reação das agências de rating ao arcabouço fiscal em vigor. Quem decide alocação de capital no Brasil terá de separar retórica eleitoral de política econômica efetiva.