O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu ao palco diante de 700 dos mais poderosos executivos do país com um recado direto: estabilidade fiscal não é mérito, é obrigação. Mas foi o que veio depois — acusações explosivas, propostas institucionais radicais e ironias sobre o Banco Central — que gelou a sala e fez banqueiros deixarem o local antes do fim.
O choque fiscal e a recusa ao corte social
No Hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, Lula cravou a meta: transformar o déficit de 2,8% herdado em superávit de 0,1% neste ano. A plateia, formada por nomes como Gustavo Pimenta (Vale), Milton Maluhy (Itaú) e Rubens Ometto (Cosan), ouviu a rejeição frontal ao ajuste via Previdência.
“Tornar o pobre mais pobre é a receita que historicamente não deu certo”, disse, defendendo que responsabilidade social e fiscal andam juntas. A fala mira o mercado, que cobra cortes estruturais, mas o presidente não detalhou de onde virá a receita extra para fechar a conta.
O “malandro” Vorcaro e a bomba no Judiciário
O momento de maior tensão veio quando Lula citou nominalmente Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. “Esse Vorcaro devia ser um malandro mesmo […] o que ele não corrompeu com dinheiro, corrompeu com orgia”, disparou, sem apresentar provas no palanque.
Na sequência, o presidente defendeu uma reforma profunda no Judiciário. Propôs discutir o fim da vitaliciedade dos ministros do STF e a mudança no critério de escolha. “A sociedade vai ter que se manifestar, porque o que está acontecendo não é bom para o país”, afirmou, jogando a bola para o Congresso e a opinião pública.
Agências “cooptadas” e a bronca na ANP
Lula mirou as agências reguladoras, com foco na ANP (petróleo e gás). Relatou ter chamado a direção para explicar falhas na fiscalização e ouviu como justificativa o alto número de servidores em trabalho remoto.
- Recado direto: “As agências vão ter que voltar a ser agência reguladora; quem define política pública é o Estado.”
- Acusação: Empresários estariam indicando políticos para cargos nas autarquias.
- Risco: Sinal de maior intervenção do Executivo na autonomia técnica dos setores regulados.
Palanque eleitoral: experiência contra “beija-bandeira”
O evento, promovido pela Esfera Brasil, virou comício. Lula comparou seus 12 anos de Planalto mais os 16 de Alckmin em São Paulo contra adversários — leia-se Flávio Bolsonaro (PL) — sem citá-lo.
“Vocês sabem quem são os candidatos e sabem quantos têm condições de governar”, provocou. Atrelou a escolha a soberania: processar minerais críticos (terras raras) no Brasil, não apenas exportar. “Quero investimento estrangeiro, mas sob nosso comando, para trazer conhecimento tecnológico”, resumiu a nova política industrial.
Data centers, IA própria e a conta de luz
Elogiou o Redata (incentivo a data centers), aprovado recentemente, mas impôs um limite energético. “Não pode permitir que energia da sociedade seja usada para data center”, alertou, citando o consumo voraz da IA.
A ambição é clara: construir infraestrutura nacional para não depender de EUA ou China. “Por que ficar atrás? Temos competência para disputar”, desafiou. O CEO da Brookfield, Marcos Almeida, resumiu o pedido do setor: “Lutar para reconquistar o grau de investimento”.
O “zoo” do Banco Central e a debandada discreta
Perto do fim, a ironia sobre a autonomia do BC arrancou risos nervosos. “Vocês brigaram pelo BC independente […] mas agora virou um zoo. Vocês que pediram, não fui eu”, cutucou, lembrando que manteve Henrique Meirelles por oito anos.
Foi o sinal para a saída estratégica. Um banqueiro foi embora antes de Lula falar; outros saíram durante o discurso alegando trânsito. O desconforto com o tom de campanha e as críticas institucionais era palpável entre quem fica no andar de cima da Faria Lima.
O que observar daqui para frente
A reforma do Judiciário e o fim da vitaliciedade no STF entram no radar legislativo com força do Planalto — o que eleva a incerteza jurídica para contratos de longo prazo. No fiscal, a promessa de superávit sem corte de gastos obrigatórios exige receitas extraordinárias ou criatividade contábil que o mercado ainda não precificou. Por fim, a briga por soberania em IA e minerais críticos ditará o fluxo de capital estrangeiro em infraestrutura e tecnologia nos próximos trimestres. Quem aposta no Brasil precisa precificar não só juros, mas a nova arquitetura institucional que o presidente desenha ao vivo.
