Três dos principais nomes da corrida presidencial defenderam, no mesmo dia, o fim ou a taxação pesada das apostas esportivas. O sinal é claro: o setor de bets entrou na mira de campanhas opostas — e o mercado precisa se preparar para o que vem depois de outubro.
A sexta-feira (25) de agenda eleitoral revelou uma convergência rara entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Augusto Cury (Avante). Todos três atacaram o modelo atual de apostas online, mas com propostas que vão da extinção total a uma carga tributária drástica.
O cerco às bets: extinção ou taxação de guerra
No Recife, Lula foi direto: “Eu vou acabar com as bets”. A fala ocorreu durante ato de campanha pela manhã, antes de jantar com empresários em São Paulo. O candidato vincula o crescimento das apostas ao endividamento das famílias e a problemas de saúde pública.
Horas depois, no mesmo Recife, Augusto Cury trouxe números que expõem a assimetria tributária do setor. Segundo ele, as bets pagam 12% de imposto, enquanto alimentos são taxados em 18%, medicamentos em 32% e energia na mesma faixa.
Comparativo tributário citado por Cury:
- Bets (apostas esportivas): 12%
- Alimentos: 18%
- Medicamentos: 32%
- Energia elétrica: 32%
Cury defende “taxar de maneira concreta, grande” ou encerrar a atividade. Flávio Bolsonaro, no Rio, foi além: prometeu proibir “o jogo do Tigrinho” e cassinos online se eleito, classificando as apostas como ameaça à ordem pública.
O recado ao agronegócio: renegociação e seguro climático
Enquanto o debate das bets dominava as capitais, Ronaldo Caiado (PSD) percorria o interior de Goiás com uma pauta estritamente econômica. Em carreatas por Quirinópolis, Itumbiara e Catalão, o governador propôs renegociação estrutural das dívidas do setor e a criação de um seguro rural público para cobrir riscos climáticos.
“Não pode ficar nas costas do produtor rural os riscos, principalmente com a ameaça desse El Niño”, afirmou Caiado. A fala sinaliza uma possível expansão do papel do Estado na gestão de risco agropecuário — tema sensível para tradings, cooperativas e bancos que operam crédito rural.
O jantar que ninguém detalhou
Lula encerrou o dia em São Paulo, em jantar com empresários. A agenda oficial não divulgou participantes nem pauta. Mas o encontro ocorre semanas após o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, defender “crédito direcionado” para indústria verde — sinal que o mercado acompanha com lupa.
Outros candidatos tiveram agendas de baixo impacto midiático: Romeu Zema (Novo) circulou por rádios e padarias no sul de Minas; Renan Santos (Missão) fez comícios no interior paulista e mineiro; Hertz Dias (PSTU) panfletou em hospitais e universidades de Belo Horizonte.
Ausências que falam
Quatro candidatos não divulgaram agenda pública: Leonardo Avalanche, Samara Martins (UP), Wilson Grassi (Democrata) e Clariana Barão (DC). Rui Costa Pimenta (PCO) limitou-se a entrevistas em canais de mídia alternativa. Edmilson Costa (PCB) focou em debates sobre moradia e posicionamento geopolítico.
A disparidade de exposição reflete, em parte, a estrutura partidária e o acesso a fundo eleitoral — variável que costuma ditar capilaridade de campanha nas últimas semanas.
O que observar daqui para frente
Três vetores merecem monitoramento contínuo por quem aloca capital ou gere risco regulatório no Brasil:
- Marco regulatório das bets: a convergência retórica entre PT, PL e Avante eleva a probabilidade de endurecimento legislativo em 2025, independentemente do vencedor. O projeto de lei em tramitação no Congresso pode ser acelerado ou substituído por medida provisória no primeiro mês do novo mandato.
- Crédito rural e seguro climático: a proposta de Caiado pode virar benchmark para o próximo Plano Safra. Bancos e tradings devem modelar cenários com subsídio público ampliado para prêmio de seguro.
- Sinais do jantar empresarial: eventuais vazamentos ou declarações posteriores de participantes do encontro com Lula darão a medida do apetite do mercado financeiro por uma eventual terceira gestão petista.
A sexta-feira não teve debates televisionados nem pesquisas novas. Mas entregou, em tempo real, o mapa de riscos setoriais que o próximo presidente herdará — ou criará — a partir de janeiro de 2027.
