Um empreendedor sueco está testando em larga escala a arquitetura que pode tornar obsoletas as grandes redes elétricas centralizadas. Jonas Birgersson, conhecido como o “Jesus da Banda Larga” por revolucionar a internet por fibra óptica nos anos 90, agora aplica a mesma lógica descentralizada à energia. O gatilho foi a imagem de satélite da Ucrânia às escuras após ataques russos à rede em 2022.
A ViaEuropa, sua empresa, acaba de fechar parceria com a associação que administra 1 milhão de apartamentos na Suécia para implantar microrredes inteligentes. O modelo promete energia mais barata, resiliente e digitalmente orquestrada — mas exige abandonar 140 anos de paradigma centralizado.
Por que as redes atuais estão no limite
A demanda por eletricidade na Europa deve crescer 60% até 2030, impulsionada por data centers, veículos elétricos e bombas de calor. A infraestrutura envelhecida não acompanha. Na Dinamarca, a operadora já suspendeu novas conexões por falta de capacidade.
A vulnerabilidade vai além da capacidade. Em janeiro de 2021, uma falha num interruptor na Croácia quase derrubou o sistema europeu inteiro. No ano passado, Espanha e Portugal sofreram apagões generalizados. Nos EUA, a entidade que monitora a rede norte-americana alerta: dezenas de milhões correm risco crescente de blecautes nos próximos cinco anos.
A arquitetura da internet aplicada à energia
Birgersson resume a proposta em quatro palavras: “Muitas. Pequenas. Baratas. Orquestradas digitalmente.” A analogia é direta: roteadores gerenciam fluxo de energia entre microrredes como fazem com pacotes de dados na web. Cada unidade — um prédio, um quarteirão, um bairro — gera, armazena e compartilha eletricidade.
- Geração local: painéis solares em telhados e fachadas
- Armazenamento: baterias distribuídas
- Compartilhamento: energia excedente flui para onde há demanda
- Tarifa fixa: modelo inspirado em assinatura de banda larga
O primeiro piloto opera desde abril de 2025 num edifício misto em Lund: apartamentos, escritórios, comércio e garagem já produzem, armazenam e trocam energia entre si. O próximo passo é modernizar um conjunto habitacional dos anos 60 com 278 unidades.
O que muda para investidores e gestores de ativos
A descentralização reduz CAPEX e OPEX: não há necessidade de megausinas nem de milhares de quilômetros de linhas de transmissão. A expansão ocorre módulo a módulo, com retorno incremental. O risco sistêmico cai — não existe ponto único de falha capaz de apagar um continente.
Kingsmill Bond, da Ember, classifica a iniciativa como “uma ideia cujo momento chegou”. A UE endossa: seu Plano de Ação para Redes exige sistemas “mais digitalizados, descentralizados e flexíveis”. A OTAN estuda a resiliência militar da arquitetura. O capital de risco já monitora o setor de eletrônica de potência — mesma tecnologia que controla o acelerador de prótons European Spallation Source, sediado em Lund.
O obstáculo não é técnico, é institucional
Convencer operadoras históricas e reguladores a abrir mão do modelo verticalizado exige mudança filosófica. Tarifas, regulação de mercado, responsabilidade por balanço energético — tudo foi desenhado para redes radiais, não em malha. A transição será negociada país a país, concessão a concessão.
Enquanto isso, Birgersson avança prédio a prédio. “Se funcionar aqui, será sucesso garantido no resto da Europa”, diz. A aposta é que a economia do modelo force a adoção: geração solar + armazenamento + otimização digital já compete em custo com a rede tradicional em diversos mercados.
O que observar nos próximos 18 meses
Três sinais indicarão se a tese se sustenta em escala: (1) resultado econômico do retrofit dos 278 apartamentos em Lund; (2) avanço regulatório sueco para tarifa fixa de energia local; (3) primeiros fundos de infraestrutura alocando capital em portfólios de microrredes em vez de ativos de transmissão. Quem posicionar carteira antes da validação regulatória captura o alpha; quem esperar a norma, compra ao preço de consenso.
