Economia

Por que o metro quadrado mais caro do ABC não para de subir

Vista aérea de São Caetano do Sul com prédios residenciais de alto padrão sob céu azul
São Caetano do Sul lidera valor do metro quadrado no ABC com R$ 1,06 milhão no 1º tri de 2026

São Caetano do Sul acaba de confirmar o tíquete médio mais alto do ABC paulista: R$ 1,06 milhão no primeiro trimestre de 2026, segundo dados do Secovi. O número coloca a cidade 28% acima de São Bernardo do Campo, a segunda colocada, e expõe uma dinâmica que vai muito além da simples valorização imobiliária.

O município de apenas 15,4 km² ostenta o maior IDH do Brasil e serviços públicos que incluem ônibus gratuito, ensino superior subsidiado e rede de saúde bem avaliada. Mas é justamente esse “pacote completo” que trava a expansão da oferta e pressiona os preços para cima.

O gargalo que ninguém consegue resolver

Os lançamentos caíram 14% na comparação anual do primeiro trimestre — de 248 para 214 unidades. Não há falta de interesse das incorporadoras. O problema é geográfico: a cidade está praticamente toda urbanizada e os terrenos remanescentes têm preços que inviabilizam novos projetos.

“São Caetano é uma cidade pequena, quase totalmente urbanizada, com oferta escassa de áreas vazias”, resume Milton Bigucci Junior, da MBigucci. “Com muitos atrativos e poucos imóveis, o valor dos apartamentos sobe.”

Valorização que dobra a média nacional

Nos últimos cinco anos, o metro quadrado no município avançou 48%, enquanto a média das 56 cidades monitoradas pelo índice FipeZAP subiu 35%. A economista Mariangela Silva, do Grupo OLX, aponta um fator adicional: a reorganização pós-pandemia.

Com o trabalho remoto, profissionais deixaram de priorizar a proximidade dos grandes centros de emprego e passaram a buscar qualidade de vida. São Caetano, com seus parques lineares, ciclovias e o complexo do Espaço Cerâmica — onde funcionava a histórica fábrica de cerâmica — encaixou-se no novo perfil de demanda.

O que o comprador de alto padrão exige hoje

O perfil do morador mudou. Não basta mais academia, quadra de areia e três vagas de garagem. O Infinite, empreendimento da MBigucci no bairro Santa Paula, ilustra a nova régua: 60 unidades de 81 m² a partir de R$ 1,08 milhão (R$ 13,3 mil o m²), com 80% das vendas realizadas antes da entrega, prevista para 2028.

O diferencial? Sustentabilidade e eficiência energética como itens de série. “O morador daqui busca um estilo de vida”, diz Bigucci.

  • Infinite (MBigucci): 81 m², R$ 13,3 mil/m², entrega 2028
  • Reserva São Caetano (Eztec): três produtos, de 33 m² a 134 m², serviços pay-per-use
  • Bosque do Povo: pesqueiro municipal e área verde no miolo urbano

A Eztec aposta no conceito de “bairro planejado”

Próximo à estação da CPTM, o Reserva São Caetano divide-se em três torres com perfis distintos. O Bosque atende o público de unidades compactas (33 a 64 m²), enquanto o GranResort mira famílias que não abrem mão de metragens generosas — até 134 m².

A área comum inclui itens de lazer tradicionais e uma novidade: serviços “pay per use” como massagem e personal trainer, pagos apenas quando utilizados. A estratégia reduz o custo fixo do condomínio e atende a demanda por experiências personalizadas.

O risco de expulsar a nova geração

Nem tudo são flores no cenário de recordes. Para Henrique Sotere, da imobiliária Sotere, o patamar de preços começa a criar um problema social: filhos de moradores tradicionais não conseguem comprar na própria cidade.

“Ou esse pessoal fica nas casas dos pais ou migra para bairros vizinhos de Santo André ou de São Bernardo”, alerta. “Muitos não têm dinheiro para ficar em São Caetano.”

O termômetro do mercado secundário

A pressão aparece também nos imóveis usados. Levantamento da startup Flot, com base em anúncios de portais especializados entre junho e agosto de 2024, mostra alta de 10,5% no tíquete médio frente ao mesmo período de 2023 — para R$ 1,1 milhão.

O dado confirma que a valorização não se restringe a lançamentos. Quem já possui imóvel na cidade vê o patrimônio crescer, mas quem tenta entrar no mercado encontra uma barreira cada vez mais alta.

O que observar nos próximos trimestres

A equação de São Caetano tem variáveis claras: território esgotado, serviços públicos de primeiro mundo e demanda que não arrefece. Três pontos merecem atenção:

  • Novos terrenos: eventuais desmembramentos ou áreas industriais desativadas podem destravar oferta pontual
  • Mobilidade: expansão da malha metroviária ou corredores de ônibus alteram a atratividade de bairros específicos
  • Política habitacional: programas de moradia para servidores públicos ou profissionais de saúde podem mitigar a expulsão de talentos locais

Enquanto isso, o clube do milhão segue fechado para a maioria — e a cidade continua a provar que, no Brasil, qualidade de vida tem preço, e ele é cotado em reais por metro quadrado.