Economia

O fim das bets e o que os presidenciáveis prometem ao dinheiro grande

Proibição de apostas esportivas racha planos de presidenciáveis: imagem mostra candidatos, símbolos de bets e dinheiro em disputa por regulação
A proibição das bets vira moeda de troca eleitoral entre candidatos à Presidência, movimentando bilhões e dividindo o empresariado.

A proibição das apostas esportivas ganhou força na campanha e já divide os planos econômicos dos principais candidatos à Presidência. O tema, que movimenta bilhões por ano, virou moeda de troca por votos no empresariado e nas classes populares.

Nesta sexta-feira (25), a agenda dos postulantes ao Planalto expôs rachas profundos sobre regulação, agronegócio e segurança pública. O que está em jogo não é só o palanque — é o rumo de setores que respondem por fatias relevantes do PIB.

O tabuleiro das apostas: proibição ou taxação pesada?

Lula (PT) foi direto em ato no Recife: “Eu vou acabar com as bets”. A fala ecoa a pressão social contra o endividamento das famílias, mas assusta operadores e investidores que viram o mercado se estruturar sob a Lei 14.790/2023. O setor estima arrecadação anual de R$ 12 bilhões a R$ 15 bilhões em tributos se mantido o modelo atual.

Augusto Cury (Avante), também no Recife, propõe caminho intermediário: taxação agressiva. Citou números que chamam a atenção — bets tributadas a 12%, enquanto alimentos pagam 18% e remédios, 32%. “Ou termina com as bets, ou taxa de maneira concreta, grande”, disse.

Flávio Bolsonaro (PL) foi além no Rio: prometeu proibir “o jogo do Tigrinho e o cassino online” se eleito. A radicalização do discurso antipostas une esquerda e direita em ano eleitoral, mas cria incerteza jurídica para quem já investiu em licenças e compliance.

Agro no centro: renegociação e seguro climático

Ronaldo Caiado (PSD) focou no eleitorado do agronegócio goiano. Em carretas por Quirinópolis, Itumbiara e Catalão, defendeu dois pilares: renegociação ampla das dívidas rurais e seguro rural subsidiado para cobrir riscos do El Niño.

“Não pode ficar nas costas do produtor o risco climático”, afirmou. A proposta sinaliza custo fiscal alto — o seguro rural hoje consome cerca de R$ 1 bilhão ao ano do Orçamento, e a expansão para cobrir eventos extremos multiplicaria essa conta.

Para investidores do setor, a promessa reduz risco de inadimplência em cadeia, mas exige contrapartidas fiscais que o próximo governo terá de negociar no Congresso.

Segurança como ativo econômico

Flávio Bolsonaro usou formatura da PM fluminense para anunciar “guerra contra o crime organizado”. A retórica de mão dura mira o eleitorado conservador, mas tem implicação direta no custo Brasil: logística, seguros de carga e investimento em regiões conflagradas.

Políticas de segurança bem-sucedidas correlacionam-se com queda no prêmio de risco de projetos de infraestrutura. O desafio é sair do discurso para a execução — algo que administrações estaduais e federais vêm tentando há décadas com resultados mistos.

Outras agendas que mal apareceram

  • Educação: Hertz Dias (PSTU) cobrou cumprimento da lei do piso e carreira docente em Minas — pauta que impacta folha de estados e municípios.
  • Direitos humanos: Edmilson Costa (PCB) vinculou campanha à causa palestina, tema sensível nas relações comerciais com Oriente Médio.
  • Mídia alternativa: Rui Costa Pimenta (PCO) priorizou entrevistas em canais digitais, sinalizando estratégia de nicho.

Candidatos como Leonardo Avalanche, Samara Martins (UP), Wilson Grassi (Democrata) e Clariana Barão (DC) não divulgaram agenda pública — o que, por si só, indica capilaridade limitada e baixa influência no debate de grandes temas econômicos.

O que observar nas próximas semanas

Três vetores devem ditar a pauta de mercado até o primeiro turno: (1) a tramitação do PL que regulamenta bets no Congresso — se avança ou trava; (2) a reação da Frente Parlamentar da Agropecuária às promessas de Caiado; (3) a consolidação ou não de uma aliança informal anti-apostas entre PT, Avante e PL.

Para quem aloca capital ou gere risco regulatório, a leitura é clara: o consenso contra as bets é real, mas a forma da saída — proibição abrupta, taxação progressiva ou transição negociada — definirá ganhadores e perdedores em setores de tecnologia, mídia, publicidade e tributação. Acompanhe os programas de governo formais; o palanque é ruído, o texto final é sinal.