O número de lavanderias de autoatendimento em São Paulo multiplicou por cinco em apenas quatro anos, saindo de menos de 400 para 2 mil unidades. O Brasil acompanha o ritmo: eram 1.500 pontos em 2022 e já passam de 8 mil, um salto de 430%. Mas a expansão desenfreada já acende um sinal de alerta nos endereços mais cobiçados da capital.
Por que o brasileiro trocou o tanque pela ficha?
A resposta está na geografia dos lares. O Censo 2022 do IBGE mostra que a área urbana cresceu 12,3%, enquanto os apartamentos encolheram. Com 87% da população nas cidades, faltam metros quadrados para máquina e varal.
Some-se a isso a busca por praticidade das classes B e C. O modelo importado — franqueado, tecnológico e sem funcionários na pista — caiu como uma luva. “As roupas saem secas, perfumadas e é só dobrar”, resume a corretora Josefa Oliveira, 61 anos, usuária assídua há um ano.
O mercado em números: R$ 6,2 bilhões e franquias em disparada
O faturamento do setor atingiu R$ 6,2 bilhões em 2023, com crescimento médio de 4,8% ao ano desde 2020, segundo a Abralav. No franchising, o segmento de Limpeza e Conservação liderou a expansão no segundo trimestre de 2026: alta de 17,6% e faturamento de quase R$ 685 milhões (dados ABF).
- 5àsec (Grupo Froth): R$ 330 milhões em 2025, com alta de 12,4% no primeiro semestre de 2026.
- LavPop (autosserviço): crescimento de 78% entre janeiro e junho do mesmo período.
- Cidade de São Paulo: R$ 468,7 milhões em notas fiscais em 2024 (+18%). Até agosto do ano seguinte, já somavam R$ 336,1 milhões.
Quanto custa abrir uma unidade — e em quanto tempo o dinheiro volta
O investimento inicial varia entre R$ 70 mil e R$ 400 mil, dependendo da bandeira e do porte. A Abralav estima payback entre 12 e 48 meses, com margem de lucro que pode chegar a 60%.
Parece dinheiro fácil, mas o presidente da Anel, Othon Barcellos, freia a euforia: “Ao contrário do que pode se pensar, os donos têm trabalho, sim”. O faturamento oscila com sazonalidade, quantidade de equipamentos, localização e qualidade da lavagem.
O perigo invisível: saturação nos melhores endereços
É aqui que o investidor precisa olhar com lupa. Barcellos aponta que bairros como Moema, Itaim Bibi, Higienópolis e Tatuapé já estão saturados. Abrir ali hoje é disputar o mesmo cliente com dez concorrentes na mesma quadra.
A previsão da associação é de 10 mil unidades no país até 2030 e o triplo disso até 2050. O espaço existe, mas migrou para periferias, cidades médias e regiões metropolitanas onde a densidade populacional cresce e a oferta ainda é zero.
O que observar daqui para frente
O próximo ciclo não será de quantidade, mas de eficiência. Quem entrar agora deve priorizar: localização baseada em dados de densidade e renda, não apenas “ponto comercial barato”; tecnologia de gestão remota para reduzir custos fixos; e serviços agregados (passadoria, limpeza técnica) para elevar o ticket médio. O ouro não está mais em abrir a próxima loja na esquina badalada, mas na primeira unidade do bairro que ainda não tem nenhuma.
